Qualquer banda de rock decente que tenha passado por Araraquara, no interior de São Paulo, nos últimos 27 anos, deve ter se deparado com a cena: um cidadão eufórico levanta sua mulher no colo e a “toca” como se fosse uma guitarra.

Aos 62 anos e com uma respeitável barba branca, Valdir Ramos tem dois grandes amores. Jimi Hendrix, a quem dedica desde 94 o fanzine Fatherzine, e Luiza: “Minha guitar woman, minha Foxy Lady”, derrete-se.

“Vim a viver tardiamente minha juventude, tendo a sorte de ter ao meu lado uma pessoa maravilhosa”, constata Valdir ao Virgula Música. 

Nascido em Rio Claro, Valdir passou adolescência e parte da juventude em Piracicaba. Lá, Jimi Hendrix fez sua cabeça, em 69. Chegou a Araraquara em 85, quando conheceu Luiza e casou-se dois anos depois. Aposentou-se no ano passado como escrevente técnico judiciário.

Seu trabalho tem tão pouco a ver com rock que faz lembrar o guru Yoganda. Em Autobiografia de um Yogue, ele relata sua experiência como maquinista de trem e defende a importância de se colocar amor nas mais cotidianas das experiências. O tema é caro a Hendrix, que introduziu a espiritualidade oriental no repertório do rock.

Nesta terça-feira (5), o disco inédito de Hendrix People, Hell & Angels monopoliza as atenções do mundo da música. Leia a entrevista em que Valdir Ramos fala sobre o pioneirismo do músico, sua permanência, o valor dos discos póstumos e de suas experiências com a música, que acabou por tornar-se um norte e estilo de vida.  

Quais foram as maiores contribuições de Hendrix para o mundo?

Primeiro, e principalmente, Jimi Hendrix contribuiu decisivamente para o avanço no uso das tecnologias de amplificação e no uso dos recursos de manipulação eletrônica do som. Também pode-se dizer que foi pioneiro no processo de domar o feedback, tornando aquilo que era ruído em elemento essencial do som produzido, harmônica ou melodicamente, se é que consegui me expressar bem, já que não sou músico.

Aliás, alguns autores apontaram essa característica do som de Jimi Hendrix e não posso deixar de citar dois desses nomes. O primeiro é Luiz Carlos Maciel, que em um artigo intitulado “Jimi Hendrix está na dele” (O Pasquim, 1969), afirmava: ”Ao contrário da maioria de seus companheiros de viagem, Hendrix concentra suas experiências sobre o aparato elétrico de seus instrumentos. (…) ele explora todos os sons conhecidos e alguns desconhecidos da guitarra elétrica. Ate mesmo a distorção deliberada do registro elétrico de suas gravações, e amplamente utilizada. (…) O que a música eletrônica aspirou a fazer, Hendrix realiza a nível de musica popular. (…) Ela envolve (a música de Hendrix), para ser devidamente apreciada, uma nova sensibilidade musical que os Beatles apenas insinuaram em seus ouvintes.”  

O segundo autor que cabe citar é Joachim Berendt, quando afirma:“Talvez se pudesse dizer que Hendrix não tocava guitarra, propriamente, mas que seu instrumento era a eletrônica; ela e que era a verdadeira fonte de suas ideias, do seu mundo musical. Por essa razão, o seu sound influenciou músicos de todos os instrumentos.” (O Jazz – Do Rag ao Rock, Editora Perspectiva, 1972).  

Além disso, devemos lembrar que Jimi Hendrix costumava tocar com seu samplificadores Marshall no máximo volume, não raro quase os destruindo com sua guitarra, o que fazia com que os fabricantes se desdobrassem para melhorar seu produto, tornando-o mais resistente e preciso, o mesmo acontecendo com as guitarras que usava.

O que faz com que suas músicas permaneçam atuais?    

A forca intrínseca e o encantamento de suas canções e composições, tomando como base o uso que ele fazia dos recursos eletrônicos de estúdio, com base nas afirmações acima elencadas. A par disso, devemos lembrar a universalidade de suas letras e, para ficar apenas no primeiro e seminal álbum de estreia, cito algumas: “Manic depression touching my soul/ I know what I want but I just don’t know how to go about getting It/ Feeling, sweet feeling dropping from my fingers, fingers (Manic Depression)”/ “Is that the stars in the sky or is it raining far from now / (…) Is this love, baby, or is it just a confusion? (Love or  Confusion)/  Will I live tomorrow? Well, I just can’t say/ But I know for sure/ I don’t live today (I don’t live today)/ If you can just get your mind together, then come on across tome. We’ll hold hands, and then we’ll watch the sun rise (Are You Experienced?).

Do seu segundo álbum, lançado  no final do ano de 1967, Axis:Bold As Love, vale citar a belíssima balada Little Wing, regravada por mais de uma dezena de bandas e músicos, tais como Eric Clapton, Eric Johnson, Joe Satriani, Sting, Skid Row, Pearl Jam, The Corrs. Temos que lembrar, ainda, das inúmeras releituras de suas músicas, o que fez com que elas permanecessem na memória musical de varias gerações, permanecendo atuais, através de bandas como The Cure, Red Hot Chilli Peppers, Metallica, Guns and Roses e tantas outras.

Qual é o valor destes discos de “inéditas” que vêm saindo desde que  ele morreu?

Isso envolve dois lados. O negativo e que essas músicas em sua maioria são esboços de canções, ideias musicais que ele criava em estúdio que, com certeza seriam trabalhadas e desenvolvidas em composições mais elaboradas no futuro… E pode-se imaginar que ele não gostaria de ver esses esboços dados ao público.

Mas, se ele gravava essas ideias, também podemos imaginar que ele as queria perpetuadas. Agora, o lado positivo: tratando-se de um gênio, essas “inéditas” mostram ao mundo o processo criativo de um artista genial. Sim, porque quem em sã consciência descartaria uma sinfonia, mesma inacabada, de Mozart ou Beethoven, ou um rascunho/esboço de Picasso ou Dali?

E falando agora como hendrixmaníaco, temos umas jams maravilhosas de Hendrix, entre elas vale citar a que saiu no CD Morning Symphony Ideas (MCA/Exp.Hendrix,2000), intitulada Keep On Groovin, com 28 minutos, somente Jimi e Buddy Miles em estúdio; do mesmo CD, temos Jungle (9min), cujos dois primeiros minutos são de uma beleza e sutileza estonteantes; saiu também no CD Hear My Music (Geffen/Exp.H., 2004) uma jam maravilhosa, Jimi/Jimmy Jam (16min59), com o baixista Dave Holland, o guitarrista Jim McCarty e Mitch Mitchell na bateria, lembrando que Holland tocou em Sampa ano passado.

Sabe-se  também que existem jams de Jimi com John McClaughin e Larry Coryel, ainda não lançadas pela família. Nesse novo disco que sairá (nesta terça, 5) tem uma jam que Jimi fez com seu amigo Stephen Stills, que realmente é o que se pode chamar de “inédito”….Enfim, são “esboços” da arte de um gênio que não podem ser desprezados….um artista que, como bem disse Rogero Sganzerla, nasce de cem em cem anos! 

Se tivesse que levar um disco para uma ilha deserta, qual seria e por quê?      
Electric Ladyland, pela simples razão de que acredito que esse disco sintetiza tudo o que de melhor o rock e Jimi Hendrix produziu. O álbum tem de tudo, desde o rock mais visceral de Come On (Let he good times roll), o experimentalismo de efeito, phasing, backward e pan-stereo, na faixa de abertura And The Gods Made Love; tendo ainda balada no melhor estilo, na faixa Have You Ever Been To (Electric Ladyland). Sem falar na melhor versão de uma música de Dylan, All Along the Watchtower, tem ainda jazz e blues em Rainy Day Dream Away/ Still Raining, Still Dreaming; mais uma longa suíte cheia de climas, no melhor estilo do rock progressivo em 1983: A Merman I Should Turn To Be, sem falar no mais puro blues, calcado na melhor tradição dos mestres Robert Johnson e Muddy Waters, Voodoo Chile.E para concluir, cito mais três canções: o rock urbano de Crosstown Traffic; uma bela homenagem a mãe de Jimi, Lucille, em Gypsy Eyes e, por fim, uma ode à solidão, com um riff de abertura fantástico no pedal wah-wah, em Burning Of The Midnight Lamp.

Enfim, um álbum magnifico e visceral, completo, e complexo, como deve ser o bom rock’n’roll, a arte de um gênio em seu mais elaborado e alto nível!

Além de Hendrix, que sons mais você curte?

Em se tratando de musica, seria mais fácil se a pergunta fosse o que eu não curto. Gosto e tenho curtido muito jazz, tipo Keith Jarret, Weather Report, Gary Burton, John Abercrombie, Coltrane, Mingus, Miles Davis, Clifford Brown, Larry Coryel e por aí vai…. Rock progressivo é outra coisa que rola na vitrola: King Crimson, Yes, Van Der Graaf Generator, Pink Floyd; também: Beatles, Grateful Dead, Canned Heat; John McClaughin/Mahavishnu Orchestra. Blues é outra coisa que ouço muito, de Buddy Guy, passando por S.R. Vaughan a Blues The Ville, Sun Walk, Celso Blues Boy, Blues Etílicos etc. 

De MPB, curto os clássicos: Tom Jobim, Elis, Milton, Chico, além de Caetano, Gil, Tom Zé; de mais moderno ando ouvindo, Cae Rolfsen, Matuto Moderno, Ricardo VigniniVanguart, Lavoura, Mr.Zelion. Gosto de chorinho: Waldir Azevedo, Jacob do Bandolin, Pixinguinha, entre outros.

Enfim, para não me estender demais, não  temos preconceito em música; apenas não curtimos muzak. 

Fale um pouco da história do Fatherzine, como começou e por que ficou tanto tempo sem lançar uma nova edição?  

O Fatherzine começou em 1994, quando fracassou a tentativa de lançar um fanzine durante uma Semana de Anarquismo e Cultura de Massa, evento de cultura alternativa do qual participei com uma moçada no campus da Unesp, Araraquara. Chateado, com o fracasso, pensei que ainda poderia lançar um fanzine, mesmo sozinho. E o assunto que me veio em mente foi música e o artista: Jimi Hendrix. Isto posto, fucei minhas pastas de recortes a vendo a quantidade de matérias, notas e notícias sobre JH, juntei tudo e em apenas algumas horas, montei o “boneco” do Fatherzine número zero.

Depois, com os contatos se estabelecendo a o recebimento de varias matérias de jornais de outros estados, principalmente do Rio de Janeiro, demos continuidade, lançando um fanzine por ano… A partir do número dois ou três abrimos o leque de assuntos, passando a abordar assuntos correlatos, como os grandes festivais dos anos 60 e 70, guitarristas que influenciaram Jimi e que foram por ele, psicodelismo, rock progressivo, blues, bandas coevas a Jimi Hendrix e matérias sobre temas que interessavam ao genial guitarman, tipo, comics, ficção cientifica etc.

Também organizamos eventos para lançamento dos primeiros números do zine, com shows de bandas da cidade, que tocavam alguma cancão de Jimi, chegando mesmo a trazer duas bandas Jimi Hendrix cover de fora para tocar: a Altos Mares (RJ) e a Experience (Santos). Das bandas que tocaram cito ainda: Excomungados (Sampa), Controversy, Funeral, T.H.C.; Skip Jack; Simpsons of the Universe; Alcatéia, todas de Araraquara.

Em 2005, demos uma parada estratégica, com a edição de numero 13, pois pretendíamos montar um site com o material acumulado em mais de dez anos, mas isso ainda não rolou. Em 2012, resolvemos soltar mais uma edição para não deixar passar em branco os 70 anos que Jimi Hendrix teria completado em 27 de novembro.

Você trabalhava no fórum, ainda trabalha? Desculpe a indiscrição, mas com que idade está? Gostaria também que falasse sobre como a música te ajuda a se manter otimista tendo um trabalho sem relação nenhuma com ela?

Estou com 62 anos, completados em janeiro deste ano, aposentado desde junho de 2012. Antes de me tornar funcionário público, trabalhando no fórum, fui balconista de farmácia, de sapataria, revisor de jornal; trabalhei em cozinha industrial no RJ por uns dois anos, de 1970 a 72, trabalhei entre 80 e 81 no departamento de criação da editora Tecnoprint (RJ), de onde saí para assumir no fórum de Piracicaba. 

Mas a música sempre fez parte de minha vida, principalmente a partir de minha adolescência, quando comecei a frequentar uma loja de discos em Piracicaba, toda semana passava na loja, para ver as novidades e comprar alguns LPs.
Sempre gostei também de ir a shows e, em 1985, quando vim para Araraquara, transferido para o fórum local, para cursar letras na Unesp, conheci a Luiza e em 1987, nos casamos….

E o que normalmente acontece com quem se casa, se afastar da “cena”, comigo se deu o contrário, já que a Luiza também gostava de sair, curtir a noite, shows, mergulhamos na cena musical local, acompanhando várias bandas, indo a shows, organizando eventos para lançamento do zine etc e tal.

Além disso, não passamos um dia sem ouvir música aqui em casa, sempre acompanhado de uma taça de vinho ou uma cerva gelada…  Assim, vim a viver tardiamente minha juventude, tendo a sorte de ter ao meu lado uma pessoa maravilhosa como a Luiza, minha guitar woman, minha Foxy Lady.

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