Eram notas desencontradas dos instrumentos, músicos chegando de última hora para tomar seus lugares, um falatório de técnicos e produtores, quilômetros de fios pelo chão, trilhos e gruas das câmeras, acerto de luzes e… ufa! Finalmente ecoou o aviso de “silêncio” pela sala de ensaios da Orquestra Petrobras Sinfônica, que fica na Lapa, Rio de Janeiro, anunciando que a gravação iria começar. Mas a sessão desta tarde de quarta-feira (19) teve um motivo especial.

Foi o encerramento das gravações do Samba Book de Martinho da Vila, que já havia acontecido no início de novembro com 24 convidados, como Paulinho da Viola, Leci Brandão, Ney Matogrosso, Paula Lima, João Donato e Diogo Nogueira. Canta, canta minha gente, Quem é do mar não enjoa, Ex-amor, Pra tudo se acabar na quarta-feira são algumas do repertório que foi fechado, desta vez com os músicos da OPES, com um pot-pourri de sambas da Vila Isabel e com o clássico Tom maior.

Tom maior (do disco Martinho da Vila, de 1969) teve arranjos do maestro Leonardo Bruno – arranjador também do pot-pourri que foi registrado apenas de forma instrumental.  “Convidados o maestro Leonardo porque ele tem uma longa relação profissional e de amizade com Martinho. Aliás, todos os músicos que participam do Samba Book já tocaram com ele em diferentes épocas da carreira”, explica Afonso Carvalho, idealizador do projeto que tem produção de Alceu Maia e vai ser lançado em abril de 2013. 

A fidelidade aos arranjos originais – “Apenas se adequando ao tom de cada artista convidado”, destaca Afonso – e o foco nos principais clássicos do sambista são as características principais do Samba Book. 

Em relação à clássica série Songbook criadas por Almir Chediak no final dos anos 1980, o produtor lembra que seu projeto é específico para sambistas. “Os songbooks estabeleceram um marco na homenagem aos artistas com as regravações e partituras. Mas agora, conseguimos ampliar o trabalho em vários aspectos. Sinto que temos oportunidade de criar coisas novas mesmo com o processo em andamento. Foi assim com a Samba Book de João Nogueira, quando lançamos, por exemplo, a ferramenta “Aprenda a tocar” no site do projeto”, diz Afonso, lembrando que o trabalho vai sair em CD e DVD, além de disponibilizar 60 partituras em formato de fichários. E, no que depender da vontade do idealizador, Paulinho da Viola estará na próxima edição. “Mas não há nada acertado ainda”, diz Afonso, esperançoso.

Compadres

O pot pourri foi o primeiro a ser gravado, regido pelo maestro Leonardo Bruno. “Conheço meu compadre Martinho há 27 anos! Nosso primeiro trabalho foi na Sinfônica de Vitória com o Concerto negro, apresentado em 1989. Aliás, a paixão de Martinho é o negro na música clássica”, conta o maestro que, além dos arranjos e regência, fez parte do coro, ao lado dos filhos de Martinho, na primeira fase do projeto.    

Para a gravação de Tom maior, Leonardo deu lugar ao colega Carlos Prazeres, regente da OPES que, com Martinho já presente, começou o ensaio com a orquestra. Sempre ligado na opinião do sambista, que pediu um ritmo um pouco mais acelerado, Prazeres contou que 80% dos músicos estava ali – havia menos trombones e não tinha tuba, por exemplo. “Gravar com um ícone com o Martinho é uma aprendizagem, mesmo a Petrobras Sinfônica já tendo uma tradição na MPB. Acabamos de gravar um DVD com Gilberto Gil e também participamos do projeto “MPB& Jazz”, de Wagner Tiso”, citou o maestro.

Com Carlos Prazeres regendo a orquestra e Leonardo Bruno como “personal maestro” – apelido dado por um dos músicos, por ele guiar Martinho para cantar e pausar nas horas certas – a gravação de Tom maior foi repetida três vezes. Depois da “boa”, todos, finalmente, puderam aplaudir. “É um projeto tão grande e bonito que não dá pra resumir numa entrevista”, disse Martinho da Vila depois da gravação. 

O sambista contou que não interferiu na escolha de repertório nem dos convidados do SambaBook. “Me consultavam de vez em quando, e a minha palavra era sempre a última: tá ótimo!”, brincou. Com aquela típica serenidade e experiência de longa estrada, Martinho disse que, pra ele, é normal se apresentar com orquestras sinfônicas, mas que, ainda assim, sempre precisa de uma maior concentração. “Ali, envolvido por aquela orquestra e um som tão maravilhoso… e você não pode nem curtir! Tem que fazer um esforço muito grande pra não se perder”, disse Martinho.  

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