Festival Sónar 2014, em Barcelona


Créditos: Divulgação

O que acontece quando três nerds musicais e audiófilos se reúnem para tocar seus discos de vinil preferidos em um soundsystem poderoso, construído especificamente para isso? A melhor pista de dança do mundo. Isso é Despacio, o projeto do norte-americano James Murphy (líder da finada banda LCD Soundsystem) e dos irmãos belgas David e Stephen Dewaele (2manydjs, Soulwax), o grande destaque deste ano do Sónar, festival espanhol de música avançada, realizado entre os últimos dias 12 e 14 em Barcelona.

Essa foi a primeira vez que o Despacio saiu da Inglaterra; o projeto estreou no Festival Internacional de Manchester no ano passado e depois foi executado mais duas vezes em Londres desde então. E foi um sucesso.

Realizado nos três dias do Sónar, durante seis horas consecutivas (das 15h30 às 21h30), o Despacio tinha uma estrutura própria, alheia aos quatro palcos do Sónar de Dia (com entrada específica, bares e banheiros), e capacidade limitada a 1.200 pessoas, o que fazia com que filas para entrar fossem frequentes. Pela experiência imersiva e pela sua configuração, o Despacio era um festival dentro do festival.

Lá dentro havia sete soundsystems McIntosh de três metros de altura e 50 mil watts, dispostos em círculo, com visores azuis, num ambiente escurecido para impedir a entrada da luz do dia. No centro da pista girava um globo de espelhos ocasionalmente iluminado. Também iluminada era a decoração do teto, com planetas de isopor e uma nave espacial. Os três DJs permaneciam às escuras o tempo todo – exceto pelos flashes dos celulares do público, apesar do pedido por escrito num papel fixado ao lado da cabine, para não fotografá-los nem filmá-los, e sim para “aproveitar o momento, pelo menos hoje”.

E durante as seis horas diárias do set, o público ouvia (e dançava muito) um incrível passeio pela história da música popular (pop, rock, soul, funk, eletrônico, disco, reggae etc.), além, é claro, de muitas raridades: era exatamente o que James Murphy e os irmãos Dewaele gostariam de ouvir numa festa. O repertório do Despacio é bem mais próximo ao sets habituais de Murphy do que o que os 2manydjs costumam tocar em público, que há muitos anos abandonaram os mashups (a faceta nerd, descobridora de novos sons, dos belgas é mais evidente como a dupla Soulwax).

A qualidade sonora do Despacio é excelente, o som é alto e claro, e ouvia-se perfeitamente bem em qualquer lugar da pista, não apenas na frente das caixas de som; ao contrário, quanto mais longe delas, mais “surround” o som.

Versões remexidas e editadas dos Beatles, Grace Jones, A Guy Called Gerald, Queen, Sylvester, David Bowie e muito mais passaram pelo soundsystem do Despacio, uma celebração genuína à música, cujo protagonista inequívoco é o público. Esse foi o ponto alto do Sónar, mas havia mais, como você pode ver abaixo.

Massive Attack

Anunciado como “novo” show da dupla Robert Del Naja (“3D”) e Grant Marshall (“Daddy G”), a apresentação do Massive Attack não é tão nova assim. Trata-se de um show muito parecido ao que São Paulo assistiu em 2010, como parte da turnê do álbum Heliogoland. O Massive Attack era a atração principal do festival e encheu o enorme pavilhão do Sonar Club (cabem com tranquilidade umas 14 mil pessoas ali), o maior palco da noite, no sábado.

O “boa noite” em catalão de Robert Del Naja já indicava o que viria: um poderoso posicionamento político. Um tela de LEDs atrás da banda exibia notícias, informações e frases em inglês e catalão (não em espanhol) sobre democracia, capitalismo e cidadania, numa parceria com a UVA (United Visual Artists), coletivo responsável pela parte visual dos shows e que dirigiu clipes mais recentes do grupo.

Em Girl I Love, com participação do cantor Horace Andy, parceiro de longa data da banda, o telão exibia números de gastos com guerras e armas, e o faturamento de games violentos, como Call of Duty. Logotipos das mais variadas empresas multinacionais (Youtube, Nestlé, Apple, Monsanto, Gilette, Fiat etc.), exibidos em alta velocidade, quase se sobrepunham à imagem das bandeiras nacionais de diversos países, numa alusão evidente de que as corporações são as novas nações. Apesar da crítica contundente, o tom geral era de otimismo.

Hits dos anos 90, como Teardrop, Unfinished Sympathy, Risingson, também estiveram lá. As notícias exibidas em catalão no telão durante “Inertia Creeps” eram as mesmas publicadas nos jornais locais no dia do show, como “Cai um pedaço da fachada da Sagrada Família”, ou atuais, mais falsas, como “Felipe VI abdica” (ele, na verdade, será coroado rei dia 19 de junho), o que provocou reação positiva na platéia catalã, republicana e… catalã, não espanhola.

Se o Massive Attack não apresentou grandes novidades, mostrou qualidade e força – em boa parte impulsionada pelo vibrante baixo e por duas baterias, num espetáculo de dub, reggae e rock experimental-, o que já se pode considerar um clássico.

Ao mesmo tempo, num palco secundário, um público menor e com calças bem mais justas assistia com atenção ao belo show da sueca Lykke Li e seu dark folk.

Neneh Cherry

Aos 50 anos, a cantora sueca Neneh Cherry está de volta e em ótima forma, com o primeiro disco solo desde “Man”, de 1996. Trata-se de “Blank Project”, produzido pelo britânico Kieran Hebden, mais conhecido como Four Tet e que assistiu ao vigoroso e lotado show de Neneh no palco Sónar Hall, no sábado, 14 – mais tarde ele tocaria no Sónar de Noite, antes do Masssive Attack. Acompanhada da dupla RocketNumberNine (bateria e sintetizadores), Neneh Cherry apresentou o disco novo, que soa tão fresco e elaborado quanto a performance ao vivo.

Plastikman

O alterego do produtor canadense Richie Hawtin fez o show mais esperado do primeiro dia do festival, quinta passada, no qual apresentou “Objekt”, espetáculo do álbum “EX”, o primeiro do Plastikman em 11 anos, lançado na semana passada. Esse álbum foi gravado ao vivo no final do ano passado no Museu Guggenheim, em Nova York. O show do Sónar foi a segunda apresentação desse mesmo espetáculo, e a única deste ano.

O tal “objeto” do show é um “obelisco” de uns 5m de altura, de quatro lados formados por LEDs, posicionado no meio da platéia, cujas imagens, controladas por Hawtin, incógnito no palco, eram sincronizadas com a música. Formas geométricas e abstratas acompanhavam o minimalismo e a opacidade característicos do techno do Plastikman. Como um totem, esse objeto curiosamente também se comunicava com o público, que reagia a ele, quase como numa cerimônia pagã-digital, sem o respectiva adoração, mas por puro prazer.

Robyn e Röyksopp

A dupla norueguesa Röyksopp e a cantora sueca Robyn estrearam a turnê do disco Do It Again, atração mais aguardada do Sónar de Noite da sexta passada.

O show foi dividido em três partes: primeiro com músicas do Röyksopp, depois de Robyn, e finalmente músicas de ambos. Nessa parte final, a dupla usava balaclavas prateadas, e ela um vestido do mesmo material, um pouco destroçado. Robyn mostrou um grande vigor vocal e físico, e esse “convênio” Noruega-Suécia confirma a tradição nórdica de produzir synth-pop divertido e dançante.

Chic

Outra grande atração do Sónar, o Chic, do guitarrista e produtor Nile Rogers, se apresentou no festival pela terceira vez, mas foi a primeira depois do megassucesso mundial “Get Lucky”, de 2013, que apresentou Rogers à geração dos nascidos nos anos 80.

A história de Rogers se confunde com a da música pop, e foi isto o que ele e a banda, todos de branco, apresentaram: um portfólio da carreira dele. Sucessos do Chic, um dos maiores nomes da disco, como Everybody Dance, Dance, Dance, Dance, Le Freak e I Want Your Love estiveram no mesmo repertório de I’m Coming Out (Diana Ross), Like a Virgin (Madonna), Let’s Dance (David Bowie), todas essas produzidas por Rogers, além, é claro, de Get Lucky (Daft Punk). No show de 2010 no Sónar, o Chic só tocou músicas próprias.

No telão, imagens do mar e paisagens que se fundiam com a das vocalistas, letras das músicas e indicações do que o público deveria fazer (“jump” ou “clap”, por exemplo; pular ou bater palmas) conferiam um clima de festa de fim de ano de empresa. Ou de show de cruzeiro. Mas não importava, os hits eram maiores do que tudo isso, e muita gente caiu nos embalos de sábado à noite no palco Sónar.

O festival

O festival espanhol de música avançada Sónar acontece todos os anos desde 1994 em Barcelona e apresenta bandas e DJs das mais variadas vertentes da música eletrônica, mas também nomes pop. Este ano o evento reuniu 109 mil pessoas durante três dias, o segundo maior público da história do festival. O recorde, de 121 mil pessoas, foi batido em 2013, primeiro ano em que o Sónar de Dia (o festival é dividido em Dia e Noite, em lugares distintos) se mudou do quadrilátero formado pelos museus CCCB e MACBA, no Raval, no centro da cidade, para o espaçosa Fira Montjuïc, centro de convenções próximo à Plaça de Espanya, com mais capacidade de público. Antes dessa mudança, o público total do evento ficava em torno de 90 mil pessoas.


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Melhor pista de dança do mundo é destaque no festival Sónar em Barcelona