Os Racionais MCs divulgaram nesta terça-feira (23) um vídeo de 20 minutos com a apresentação do grupo na Virada Cultural de São Paulo este ano, na praça Júlio Prestes.

A direção e edição é de Rafael Kent da Okent Films, que produziu clipes como Virando a Mesa, de Rashid, Para Minha MãeCone Crew Diretoria, Tudo Está Parado, do Jota Quest.

Veja o vídeo


“Para quem havia recém-entrado no mundo do rap, já havia trabalhado com a Cone Crew Diretoria e Rashid, receber o convite para registrar um show dos Racionais, o show, pra um público imenso, sempre é um grande desafio né? Foi uma satisfação imensa, sem dúvidas”, afirmou Kent ao Virgula Música.

Nome em ascensão no mundo dos clipes, o diretor falou sobre sua preocupação com a estética em seus trabalhos. “Um bom videoclipe pra mim tem que ser antes de mais nada tecnicamente bonito, boa fotografia, boa produção etc. Afinal, é um clipe, não é um filme mas, é claro que um roteiro sempre faz a diferença. Na verdade, faz toda a diferença. Um clipe com uma boa sacada não precisa ser perfeito, a ideia supre tudo. Talvez, por eu ter começado com fotografia, eu tenha essa visão mais fotográfica, luz, imagem, lente… Gosto de coisas bem feitas”, resume.

Kent comentou também sobre o mercado de vídeos musicais com o enfraquecimento da MTV. “O mercado de clipes no brasil é muito cruel, as pessoas não entendem quanto que custa algo bem feito, o tanto de profissionais envolvidos numa produção e que nada, por mais que pareça simples, nunca é”, defende o diretor.

“Quando o meu primeiro clipe saiu na MTV foi sensacional, foi um lance que eu nunca havia imaginado antes, nunca me passou na cabeça ser fotógrafo e muito menos diretor e editor. Com o tempo percebi que a MTV não tinha mais muitos parâmetros para o que era passado por lá, não estou falando que o que eu faço são as melhores coisas e nem quero que seja, mas eu gostaria que quando um clipe meu fosse veiculado na MTV fosse um prêmio, um desafio e não, tudo entrava lá, bastava a banda ter audiência que tava lá e pior, ganhava-se prêmios, muitos”, lamenta.

“Acredito que a MTV ajudou, infelizmente, a afundar a produção audiovisual brasileira e isso é triste. Eu não posso ter certeza do que eu falo, não estava lá dentro para saber, mas é no que eu acredito. Se uma banda famosa, estourada, que geralmente tem grana pra fazer um clipe legal mandava clipes ruins e eram aprovados o que dizer pro cliente que virava pra você e falava, ahn? Com X reais eu faço um clipe daquela banda ‘ganhadora do VMB’, o parâmetro brasileiro pra quem não entende nada de luz, câmera, logística, eram clipes ruins e mal feitos”, afirma o diretor.

Kent ainda argumenta que se bandas sem dinheiro fazem clipes mais legais do que bandas com dinheiro, alguma coisa está errada e que após ter feito um clipe que muitos consideram o seu melhor e não ter sido indicado ao VMB se desiludiu. 

“Hoje meu pensamento é exclusivamente voltado para o YouTube e isso é triste. Acho a TV muito importante, mas não está conseguindo atingir as pessoas, a massa? Talvez, mas a massa precisa ser educada, ter referência, e a TV tem e teve esse papel, pelo menos na minha época sim. Bem, posso estar falando um monte de besteiras também, mas pra mim o cenário não é legal, ando fazendo muitas coisas, sendo elogiado, fico feliz, mas eu queria estar feliz junto com muita gente, concorrendo com muita gente, ter um mercado lindo e isso infelizmente não acontece. Mas, eu amo o que eu faço e isso nunca vai mudar”, desabafa.

Sobre os Racionais na intimidade, ele afirma que a decisão de fazer o vídeo foi de última hora e que não teve muito contato com a banda. “O Mano (Brown( me recebeu no camarim, já conhecia o Edi Rock, que também é um cara bem bacana. Quem me apresentou ao Mano Brown foi a Flora Matos, que estava por lá e fez essa introdução. Entrei no camarim, escolhemos as músicas e foi, mas, eu fiquei a fim de gravar o show todo e o material está lindo”, orgulha-se.

O diretor frisou a humildade de Brown. “Tive mais contato com o Mano Brown pelo telefone e e-mail, ele viu o material e curtiu bastante. Me tratou desde o começo com respeito, me perguntando o que eu achava e que tinha confiança no que eu estava fazendo e isso não tem preço. Enfim, Racionais máximo respeito, mesmo. Estou bem feliz”, afirma.

O diretor contou ainda ter sido fisgado pela força dos “vida lokas”. “É engraçado, eu não sou do mundo do rap, mas quando eu morava em Salvador é muito comum você ouvir na rua a todo momento o plim, plim do ‘Diário de um Detento’, saca? Tipo, é um patrimônio brasileiro do povo, e você sabe, Salvador tem muita gente do povo, pessoas que precisam dessas palavras. Eles tem essa imagem forte, essa é a estética, força, punhos cerrados como no vídeo de Marighella na Virada Cultural. Então, qualquer coisa que você faça em termos de imagem fica forte, não tem jeito, eles são isso, força, é a rua, é a força da rua”.

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