Ney Matogrosso inicia a turnê Inclassificáveis

Tendo a libido como arma e a tradicional moralidade como inimiga, o cantor Ney Matogrosso utilizou sua arte como “um ato de confronto consciente” até se transformar em uma grande lenda da música popular brasileira, a qual tem sua trajetória revista no documentário Olho Nu, dirigido por Joel Pizzini.

“Ter a libido como arma é maravilhoso porque é um poder contra o qual nada e nem ninguém pode enfrentar”, disse Ney à Agência Efe após a apresentação do documentário no Amazonas Film Festival, realizado nesta semana em Manaus.

O início da carreira em plena ditadura militar fazia de suas provocantes coreografias, marcadas por uma sexualidade ambígua e explícita, um ataque frontal aos valores vigentes da época e, justamente por isso, conseguia abrir um espaço de liberdade em todos os âmbitos da sociedade.

Essa transgressão lhe transformou em um dos artistas mais queridos e respeitados do Brasil, um carinho que pôde ser observado após a apresentação do documentário, quando foi ovacionado durante vários minutos pelo público presente.

Tranquilo e observador, Ney procura ceder o protagonismo do documentário aos próprios produtores, tornando notável sua máxima: “sou uma pessoa normalíssima fora de palco, recatada e sem necessidade de uma hiperexposição e nem de chamar a atenção”, afirma o cantor.

Revolucionário da moral sobre o palco, Ney fez da ambiguidade e da sexualidade parte fundamental de sua arte, incorporando saias, maquiagem, trajes de flamenco, máscaras e movimentos sensuais em suas apresentações.

O uso da parte dessa vestimenta transgressora, segundo ele, nasceu como uma necessidade de preservar sua identidade: “Tinha 30 anos e não podia perder o direito de andar pelas ruas por causa da fama”, apontou.

A fascinação pelas máscaras nasceu de seus contatos com o teatro Kabuki, uma disciplina cuja influência se estende às suas peculiares apresentações, nas quais a música é apenas mais uma parte do grande espetáculo que Ney faz de seus shows.

“Eu me considerava um ator que cantava e pensava que cantar era algo que estava por trás da minha atuação. De fato, quando subi no palco pela primeira vez com o Secos & Molhados – grupo com o qual alcançou a fama – só perguntei que espaço ia ter no palco e comecei a fazer o que me apetecia, nem eu sabia o que ia ocorrer”, confessa o cantor.

Desde forma, Ney podia iludir o jogo duro da ditadura, já que, segundo ele, naquela época o Brasil “vivia submetido por uma ditadura militar assassina que atirava em pessoas vivas de aviões”, rememora.

Diante deste contexto repressor, o cantor decidiu que não queria viver mais oprimido. “Tudo o que eu era não estava permitido, tudo o que o governo queria não era eu. Era sair de casa que a polícia já me parava, me revistava e, por isso, recorri à arte para me libertar”.

Hoje, Ney observa sua faceta de cantor acima do seu papel como ator teatral e rebelde, mostrando-se especialmente satisfeito com seu registro vocal, mais próximo ao tom dos sopranos, que também lhe trouxe problemas no começo de carreira. “É o que me faz ser diferente”, diz o cantor ao reconhecer que sua formação musical foi baseada “na rádio do Brasil”.

“Agora estamos restritos à música inglesa e americana, mas, quando era criança e adolescente, tudo era muito diferente e, por isso, a música latino-americana também fez parte da minha formação musical”, ressaltou o cantor.

Ativo aos 72 anos e ainda preocupado com sua privacidade, Ney rejeita o papel outorgado por muitos como intelectual de referência.

“O que me faz diferente de outras pessoas é meu trabalho, mas, como ser humano, sou parte da espécie, estamos todos no mesmo barco”, conclui.

Ney Matogrosso: "Minha música é um ato de confronto consciente"

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