A fachada do Neu Club, na rua Germaine Burchard

Ciro Hamen A fachada do Neu Club, na rua Germaine Burchard

O anúncio de que uma das casas noturnas mais queridas de São Paulo vai fechar as portas deixou muita gente sem rumo no fim de setembro. O Neu, balada que se diferenciava das outras por ter um clima mais de festa de amigos do que de boate, encerra as atividades no dia 1º de novembro, depois de oito anos de muitas noites agitadas, noites miadas, alegria nas pernas e amizades eternizadas nas conversas no quintal. “Para vivermos do Neu teríamos que transforma-lo em um pico que não seria o que acreditamos, então preferimos encerrar as atividades”, diz Dago Donato, um dos sócios e DJs da casa.

O começo

Em 2008, quando o Neu nasceu, ninguém aguentava mais balada de indie rock. Enquanto casas da rua Augusta ainda insistiam em Strokes, Smiths, Interpol e “Psycho Killer”, um sobrado no bairro da Água Branca, em São Paulo, trazia algo diferente para a noite paulistana. Além dos lançamentos indie, os DJs sempre acrescentavam um tempero latino e muita coisa brasileira para complementar o saboroso clima tropical do nosso país. O Neu, como o próprio nome diz (pronuncia-se “nói”, novo em alemão), apontava para o futuro.

O clima da casa era de churrasco no quintal. Um porto seguro, onde era só chegar, pegar a sua cerveja por um preço razoável e ter a garantia de uma noite divertida ao lado de seus amigos. Com alguma sorte, você ainda conhecia um moço ou uma moça que dançava (ou tentava dançar) aquela música do Animal Collective que você tinha passado a semana inteira escutando.

O embrião do Neu surgiu quando Dago Donato e Gui Barrella eram companheiros de discotecagem nas festas Peligro, no Milo Garage, e Brasa, no Berlim. “Uma das coisas principais dessa fase foi o aprendizado. Quando abrimos o Neu, já tínhamos na cabeça tudo o que gostávamos e o que não gostávamos na noite de São Paulo. Já sabíamos, por exemplo, que nossa casa não teria comanda”.

Os DJs Dago e André Paste

Ananda Deckij Os DJs Dago e André Paste

A escolha da casa

“Queríamos uma casa com quintal. Isso era um pré-requisito. Quando abrimos, ainda não existia a lei anti-fumo, mas a casa já nasceu sem cigarro na pista. Também não queríamos nem Augusta, nem Vila Madalena. Para preservar nossa saúde. Enfim, o Gui sugeriu a rua Dona Germaine Burchard. Fomos lá e decidimos que tinha que ser naquela rua. Esperamos uns seis meses vagar casa. Quando estávamos desistindo de fazer lá, pintou essa casa. Estava caindo aos pedaços. Usamos toda a grana que tínhamos pra resolver os problemas básicos (telhado, elétrico, esgoto). Não sobrou nada para a decoração. Abrimos com paredes da pista branca, sem geladeira, do jeito que dava. E foi sucesso de primeira, assim mesmo”.

“Meio que nos apaixonamos pelo lugar. Fora que é uma rua comercial, a casa dava de fundos pro Parque da Água Branca. De noite a rua esvazia, tem muita vaga pra estacionar. Achamos o local perfeito pra fazer festa. Só precisávamos convencer as pessoas”.

Era comum ver filas indo até a esquina e até flanelinhas nas ruas nos primeiros anos de Neu. “Era um lugar diferente. Com quintal, preços honestos, sem fila pra sair… E tinha a música também. Além disso, geral pira em novidade, né? A gente passava aquela aura de cara, vou te apresentar pra um pico muito louco. É uma casa…”, diz Dago.

Música

“Durante muito tempo, quase todo lugar só tocava indie rock e lá as festas sabiam fugir desse marasmo musical, misturando e apresentando várias referências”, diz Alexandre Stamm, o famoso Alemão UC, DJ do Drunk Disco, sempre presente nas festas da casa. Se hoje vemos com facilidade que é cada vez mais retrogrado e datado separar músicas por gêneros, o Neu já via isso desde 2008. Entrar na pista era escutar “Endereço dos Bailes” seguida de “Stereo” do Pavement como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Os DJs do Drunk Disco

Ananda Deckij Os DJs do Drunk Disco

Alexandre relembra a primeira vez que pisou lá, no dia 19 de novembro de 2010. “Eu morava em Curitiba e tinha vindo pra São Paulo pra ir ao Planeta Terra. O festival era sábado e na sexta resolvemos ir ao Neu, já que já tinha ouvido falar muito bem de lá. Essa noite quem tocou foi o Dago, o André Paste e o Villa Diamante, com o Fede de MC. Foi uma noite legal demais, me senti em casa logo que cheguei e em pouco tempo já conheci quase todo mundo que frequentava o lugar. Nesse dia, ainda tinha uma galera do Rio, que também tinha vindo pelo festival e que estava lá”.

O DJ André Paste foi outro que ajudou a moldar a cara do Neu nestes anos. “Eu acompanhava a Neu pela internet, gostava demais dos flyers e sempre ficava muito impressionado com a curadoria das festas, todos meus DJs favoritos do mundo todo tocavam por lá. Quando o Dago me convidou fiquei honrado demais”.

Dago relembra alguns dos artistas que ele mais se orgulha de ter levado para tocar na casa. “Bomba Estéreo em começo de carreira (depois a Li Saumet – vocalista da banda – ainda tocou duas vezes lá), Deeder Zaman (do Asian Dub Foundation), Frikstailers, Poirier, Chancha via Circuito, Villa Diamante, Poolside, Rain Machine (a banda do Kyp Malone do TV on the Radio)… Teve o dia que os caras do MGMT pediram pra discotecar lá de graça, mas o set foi uma merda (risos)”.

Brodagem

Pedro Bruno (ou Pepe, da banda Holger) também era frequentador assíduo do Neu e era bastante comum encontra-lo por lá em qualquer festa. “Como eu conhecia todo mundo, eu sempre dava um pulo lá antes de ir pra casa, por exemplo. Ia fazer um “afterzinho” lá porque sempre foi um lugar cheio de amigos. Fui muitas vezes sozinho porque sabia que ia encontrar um pessoal lá. O grande diferencial sempre foi esse, uma casa que era balada e bar ao mesmo tempo”.

Marcelo Vogelaar curtindo a festa junina

Ananda Deckij Marcelo Vogelaar do Holger curtindo a festa junina

O Holger chegou inclusive a ter a sua própria festa no Neu, a Holger Nights, que acontecia às quintas-feiras. “A gente como banda sempre tentou se envolver na cena. E ajudar outras bandas, criar contatos, essas coisas. E a Holger Nights surgiu com esse intuito, da gente fazer uma festa nossa, discotecar, se divertir, e trazer bandas pra tocar na festa. De São Paulo ou de fora de São Paulo. No começo rolava concurso de dança, ia muita gente doida. Fizemos muitos amigos por causa dessa festa”.

Ananda Deckij ,outra frequentadora assídua da casa, é autora de todas as fotos que ilustram a reportagem e registrou grande parte dessa história, que inclusive está sendo revisitada por meio de uma retrospectiva em sua timeline do Facebook. Diariamente, até o último dia de funcionamento do Neu, Ananda se comprometeu a postar uma foto marcante com um pequeno texto sobre aquele dia.

“Um belo dia, assim que comprei minha câmera, eu falei com o Dago e perguntei se tinha algum problema eu trazer a câmera e fotografar as festas. Ele pediu pra eu ir até o bar e falar com o Gui, que falou que tudo bem”. Depois disso, Ananda fotografou as festas do Neu de 2009 a 2014. “Já teve época que em 10 dias, eu ia 6 para o Neu”.

A cordinha era uma grande sensação

Ananda Deckij A cordinha era uma grande sensação

Breve

Porém, o mundo não para e Dago já está com outra casa em funcionamento. “O Breve é uma parceria dos sócios do Neu com a Balaclava Records. É um espaço para shows, que também no futuro deve receber outras manifestações artísticas. Tem um segundo andar que por enquanto ainda não vamos explorar. O Gui também é dono do Kraut, bar na Santa Cecília. Eu vou seguir discotecando e pretendo, por enquanto, fazer festas em outros lugares. Claro que não devemos parar por aí, mas só queremos começar a pensar em novos projetos no ano que vem”.

História

“É o fim de uma era pra uma turma toda. Pra uma geração de amigos que viu no Neu o grande ápice da amizade. Mas mesmo pra quem não é amigo. Conheço muita gente que não conhece os caras da casa e gostavam de lá por causa disso. Era um lugar que te deixava confortável, preços justos e aquele quintal vai ficar eternamente gravado na nossa memória. O quintalzinho era show”, relembra Pedro.

“A verdade é que a casa já foi bem além do que se propunha quando começou. Nunca imaginamos que duraria tanto. E que faríamos tanto”, disseram os sócios Dago, Gui e Felipe Barrella, por meio de uma mensagem de despedida no Facebook. “Seguimos essa reta final com festas que irão celebrar nossa trajetória. Venha tomar uma com a gente, bater um papo, encontrar os amigos, viver o Neu Club como ele sempre foi. Que o fim deste ciclo seja uma festa memorável. Não poderia ser de outra forma”.

Ainda faltam quatro festas até o encerramento oficial, no dia 1º de novembro. Quando o DJ tocar “Soka Junkie” do Mr. Dale neste fim-de-semana, seremos transportados mais uma vez para aquele lugar mágico, onde a ousadia e alegria imperavam, o clima tropical mesmo sem sol e sem mar chegava por meio de músicas e bebidas refrescantes e a dança da cordinha coroava a noite. Celebraremos com a certeza de que tudo aquilo foi muito legal.

O Neu fica na rua Germaine Burchard, 421, na Água Branca, em São Paulo. As festas começam às 22h, exceto a de domingo, que começa às 18h. Saiba mais no Facebook da casa.

Aproveite e entre no clima com a playlist “sexta de loucura”:


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