Leo Justi

Leo Justi

Fundador do núcleo Heavy Baile, dedicado a subgêneros como baile funk, dancehall, trap e baltimore, e que atua na intersecção entre eletrônica e funk carioca, o DJ e produtor carioca Leo Justi, ao lado de Omulu, é um dos nomes que vêm despontando na renovação da eletrônica com características crossover.

Ao falar para o Virgula sobre quem considera modelo de carreira, ele dá algumas pistas sobre suas referências. “Tropkillaz, enquanto artista, Rick Rubin como produtor. Estou experimentando o processo de ser o artista e o de produzir um artista. Neste momento, eu diria Tropkillaz ou Skrillex sonhando mais alto”, afirma.

Veja o clipe de Vira a Cara:

“O funk tem muito a ensinar de conteúdo e a EDM de forma”, defende o cara. Recentemente, Leo lançou o clipe de Vira a Cara, com direção de Leandro HBL. Nós trocamos uma ideia com ele sobre o vídeo, a cena atual do funk, EDM, a parceria com a cingalesa M.I.A., rainha das fusões envolvendo eletrônica e música étnica e outros assuntos.

Qual era a ideia que queria transmitir no clipe de Vira a Cara?
Leo Justi – O Leandro HBL veio com essa ideia de fotografar a atmosfera do churrasquinho de rua, ou propriamente da rua, de pessoas simples, e explorar a sensualidade do homem e da mulher de forma mais igual, fugindo do clichê funk/hiphop “homem rico banca, mulher puta dança”. Mas em geral o meu foco costuma ser mais na forma do que no conteúdo, pelo menos até agora. Sabia que podia esperar do Leandro uma fotografia magistral e quadros lindos, e foi o que ele entregou.

Você trabalha em uma interseção entre música eletrônica e funk? Que aspectos você acha mais importantes que podem rolar de troca entre um e outro?
Leo Justi – Acho que o funk tem uma riqueza musical que escapa a 99% dos ouvidos de músicos e críticos musicais por diversos motivos. Não só o “preconceito”, mas mesmo por limitações da produção funkeira. Tem muita coisa tosca, mal produzida, mal mixada e é preciso amor e boa vontade pra enxergar a beleza ali. Eu me satisfaço com poucas músicas lançadas no universo funk e tento filtrar e potencializar o que valorizo ali em novas produções.

Já a música eletrônica (house, electro etc) tem o aspecto da produção musical muito mais bem suprido, mas em padrões rítmicos e intervenções orgânicas, humanas, é muuuito mais limitada que o funk. Às vezes uma frase de cinco palavras sampleada numa montagem de funk tem muito mais essência do que quatro minutos de uma track de house.

Resumindo, o funk tem muito a ensinar de conteúdo e a EDM de forma.

Que produtores considera modelo de carreira para você?
Leo Justi – Tropkillaz, enquanto artista, Rick Rubin como produtor. Estou experimentando o processo de ser o artista e o de produzir um artista. Neste momento, eu diria Tropkillaz ou Skrillex, sonhando mais alto =).

Que artistas da nova cena mais gosta e indica?
Leo Justi – Tropkillaz e todo o time da Buuum Trax tá foda, no funk favela, Mc Tchelinho (Heavy Baile), MC Carol e do lado roqueiro, as bandas El Efecto e Ventre.

Como avalia o momento do funk, o que de mais atual está rolando no momento, na sua opinião?
Leo Justi – Após a inovação muito bem vinda do Passinho do Romano em 2014 (pra mim a maior contribuição de SP pro funk), a cena de São Paulo está imersa nas letras e putaria extrema, que eu não curto. Mas eles estão inovando muito na produção e melodias, definido mesmo um estilo SP.

No Rio, tem mais variedade, MCs incríveis como a MC Carol, MC Cidinho (vivão e forte!), mas no geral o mercado do funk é movido a hits rapidamente descartáveis e pouquíssimos MCs se firmam.

Nos shows, todo MC canta as musicas estouradas de outros MCs. É totalmente diferente do rock ou hip hop, onde por exemplo, no show do Marcelo D2 vc vai ouvir musicas do Marcelo D2. Existe um pragmatismo extremo no funkeiro: ele faz qualquer coisa que funcione. “Integridade artística” é um conceito pouco conhecido nesse universo.

E nesse contexto, a originalidade do funk nasce de moleques de 15 anos fazendo montagens e de embriões de MCs que criaram um hit sem querer zoando com os amigos. Me parece que assim que um funkeiro se “profissionaliza”, ele perde a essência que fez brotar aquele primeiro hit. Ou um empresário o corrompe com essa mentalidade ultrapragmática.

Ouça Leo Justi:

Quando você apareceu na mídia, no começo da década, existiam poucos produtores. Hoje, já temos uma geração de beatmakers, você crê que isso ajudou a aparecer um funk com características brasileiras?
Leo Justi – Não, na verdade o crescimento da “cena bass” nessa década está ligada ao retorno pesado da influência americana (o trap especialmente) no funk. Só que está começando ainda, teve expressividade só ano passado.

Sei que o Catra, por exemplo, vai lançar musicas em beats totalmente gringos, tipo trap, twerk (uma música até em inglês). A brasilidade marcou o funk a partir de 2000, e segue firme e forte, e isso veio da favela, não de produtores “crossover” como eu, Omulu etc.

É verdade que conheceu a MIA pelo Twitter, como foi isso e o que rolou a partir dessa história? Que artistas atuais você gostaria de ter a chance de “fisgar” na mesma maneira?

Leo Justi –  Sim, mandei um tweet pra M.I.A., ela foi ouvir meu som e aí respondeu me chamando pra trabalhar. Trabalhamos juntos por uma semana na Índia, foi incrível. Mas nada do material gravado lá acabou entrando no álbum Matangi, no qual ela acabou mudando a direção artística. O álbum atrasou mais de um ano, me lembro. Acabei participando do EP que precedeu o álbum, com um remix de Bad Girls.

Gostaria muito de trabalhar com a Mapei, Grimes, Mr Catra. Ah muita gente. Mas hoje já não tenho tanto tempo pra ficar tentando chamar a atenção no Twitter como em 2011. No momento estou tentando formar um time pra crescer, tanto a minha carreira como outras, como a do time do Heavy Baile.

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