Músico, cantor, compositor e produtor, o paulistano Pipo Pegoraro é um dos artistas mais interessantes da nova música brasileira. Aos 35 anos, ele atinge maturidade em arranjos que se aproximam da música de Steve Reich, Tom Jobim e do Clube da Esquina.

Ouça Mergulhar Mergulhei 

“É um disco que mira diretamente para a música instrumental e não fica em função da voz, a voz está em função dos instrumentos e vice-versa”, afirma Pipo, que chega ao seu terceiro álbum, Mergulhar Mergulhei (YB Music).

Com direção artística de Romulo Fróes, o disco será lançado na quinta feira (18), às 21h30, na Choperia do Sesc Pompeia. O show terá as participações de Romulo Fróes, Xenia França, Filipe Catto e do percussionista erudito e vibrafonista Beto Montag.

Mergulhar Mergulhei traz dez composições, sendo duas faixas parcerias com Romulo, uma com Pablo Casella, antigo parceiro de Pipo, e uma com o poeta arrudA. Xênia França (da banda Aláfia, que Pipo também faz parte), Luz Marina, Filipe Catto e Romulo dividem o canto em diversas faixas.

Gravado ao vivo, a banda do estúdio é a mesma que acompanha Pipo em seus shows: Décio 7 (bateria), Gustavo Cék (percussão), Marcelo Dworecki (baixo), Cuca Ferreira (saxofone e flauta), Fernando TRZ (piano) e Lucas Cirillo (gaita).

Leia a conversa entre o Virgula e Pipo, cuja discografia é composta por Intro (2008), Táxi Imã (2011) e agora Mergulhar Mergulhei (2014).

O que mudou nesse terceiro disco e porque optou por arranjos mais complexos, com naipe de sopros e cordas?

Acredito que foi uma mudança progressiva e reflete bastante o resultado que exploramos com essa formação atual nos shows. Foi muito natural que o novo álbum tivesse essa sonoridade. Os arranjos das canções são assinados por todos os músicos que me acompanham e a fusão dessas diversas influências desenharam o caminho das músicas do Mergulhar Mergulhei.

A direção de Romulo Fróes também contribuiu muito para o entendimento e pela visão poética que ele agregou ao redor da construção das canções. É um disco que mira diretamente para a música instrumental e não fica em função da voz, a voz está em função dos instrumentos e vice versa.

O naipe de sopro que permeia todo o disco é composto por Sax Barítono e Gaita. Esses dois instrumentos são usados muitas vezes para reforçar os extremos, a ponta, de agudo e grave em arranjos de sopro. Como a formação da banda é grande, há outros elementos como teclado e as cordas, baixo e guitarra, que muitas vezes completam a sonoridade do naipe fazendo uma fusão de vozes.

Sempre quis colocar um quarteto de cordas nas músicas que componho, mas foi nesse disco que tive as condições ideais para que ocorresse e espero poder contar com isso nos próximos.

O som me lembrou Taiguara, (Arthur) Verocai e também a Vanguarda Paulistana, você acha que a MPB indie já pode ser equiparada à MPBzona e à psicodelia nordestina dos anos 70?

Sim, pode crer que tem influência das pessoas citadas acima, mas não sou um grande conhecedor da obra de Taiguara por exemplo. Já ouvi bastante coisa dele, mas não saberia elencar álbuns por exemplo.

O que ouço é uma mistura que engloba muitas gerações, qualquer um que passa pela rua de casa – dia sim, dia não – diria que existe um DJ maluco que toca em casa todos os dias.

Acho bem difícil equiparar a uma estética, uma classe/gênero com o que estamos fazendo atualmente. Tem muita coisa embutida nessa pergunta, poderia discorrer bastante sobre o que citou e perguntou, mas tentarei ser bem sucinto.

A psicodelia nordestina dos anos 70 que despontou vários artistas pra “MPZONA” nos anos e décadas seguintes criou coisas incríveis. É bem difícil para mim comparar o que vivemos hoje em dia com a experiência de vida que eles estavam tendo, contexto social, o tempo da comunicação, as gravadoras e as buscas que se faziam naquele momento.

Trazendo pro agora: nem todo mundo está numa rede social e tem interesse em procurar algo desconhecido. A música que faço só é considerada “indie” porque sou de uma geração que está “reaprendendo” a se organizar estruturalmente para mostrar o trabalho também para um público que não tem acesso por internet ao som. 

Se uma música toca no rádio e essa música tocar no bar, no carro ou na loja de roupa e a pessoa escuta aquilo, de alguma forma chegou e de certa forma deixou de ser “indie” para ser “pop” pois está na rádio e está sendo ouvida.

Não vejo a “MPB indie” nova tocar nas rádios loucamente como ocorrem com outros gêneros musicais e se compararmos a atenção da mídia com a música maravilhosa de Taiguara, Verocai e Vanguarda Paulistana posso ter bastante semelhança com eles pelo fato de ser rotulado como maldito, indie, ou ter medo do pop. Vale a pena uma leitura no texto resposta dado por Kiko Dinucci (leia aqui) para o site OEsquema (aqui, o texto de Bruno Natal).

Não me lembro de ouvir a músicas de Verocai numa rádio, acho que isso nos aproxima de certo modo também.

Em meio a tanta “disputa” pela atenção que temos hoje com a internet, o que faz uma música seja relevante na sua opinião?

Gosto de ouvir músicas que me façam refletir um pouquinho que seja (poética, idéia) pelas combinações instrumentais, timbríticas e que me façam sentir algo diferente do que já senti em outra hora da vida. Não ouço música para relaxar, ouço para colorir o dia com aquela freqüência sonora.

Que artistas novos ou ainda não massificados pela grande mídia você mais gosta e indica.
Sente algum ponto de aproximação entre o seu trabalho e deles?

Sinto atração natural e admiração por diversas pessoas que fazem música em minha geração e pessoas que estão chegando com tudo. Posso falar obviamente de Romulo Fróes que dirigiu meu novo disco, Tono, Bruno Morais, Anelis Assumpção, Silvia Tape, Péricles Cavalcanti, Kassin, Bixiga 70, Connan Mockasin, Dudu Tsuda, Lucas Santana, Juçara Marçal, entre tantos outros.

Quem é ouvinte ideal para sua música e que sensação você espera causar?

Quem sentir algo reverberando com a música que faço é o ouvinte ideal, não há restrições
nem contraindicações médicas. Faço música porque gosto de música, minha bula é a ficha técnica dos discos, serve como um minimanual de instrução para adentrar. Ah, e dá pra comprar e ouvir sem receita se quiser.

SERVIÇO

Pipo Pegoraro lançamento de Mergulhar Mergulhei na Choperia do Sesc Pompeia
Onde: Sesc Pompeia: rua Clélia, 93.
Quando: quinta-feira (18 de setembro), às 21h30.
Ingressos: R$ 4,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$ 10,00 (usuário inscrito no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$ 20,00 (inteira).
Venda online (aqui). Venda presencial nas unidades do Sesc SP
Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 18 anos.
Telefone para informações: (11) 3871-7700.
Site oficial: http://pipopegoraro.com

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