Primavera Fauna

Primavera Fauna

O Primavera Fauna tem o tamanho ideal para um festival. Desses que não gastam a borracha do coturno (nem minutos preciosos) fazendo um cross-country entre palco e outro. Mas grande o suficiente para animar 4 palcos ao mesmo tempo com headliners de peso. O festival chegou em sua 4ª edição reunindo 10.000 pessoas em 15 horas de música, no Espacio Brodway, um espaço de evento circundado pelos Andes a 30 minutos de Santiago.

Organizado como poucos festivais sulamericanos, tem pouca fila nos bares, e ônibus disponível e rápido mesmo para quem queira fazer seus suados pesos até o último minuto da última atração.

No meio das piscinas Brodway, estratégicas para quem queira desviar do sol e desfilar seus hot pants, redes, puffs e colchões garantiam o conforto da latino-hipster-lândia – gentilmente patrocinados por telecoms e marcas de bebidas.

Mas os mais focados já estavam em um dos quatro palcos, os dois principais, Moviestar e Rosen, coordenados com exatidão de segundos para minimizar as frustrantes perdas dos headliners.

Enquanto o sol ainda escaldava e justificava a imensidão de óculos multi-coloridos, iniciava Real Estate. A banda abriu o show com Had to Hear, do álbum Atlas, mas depois enveredou por canções dos álbuns anteriores como It’s Real, Out of Tune e Younger Than Yesterday, fechando com Beach Comber, cantada em peso pelo público presente.

No palco ao lado iniciava Erlend Oye & The Rainbows com o primeiro show agitado do festival, quase compensando o narciscimo do norueguês. Mas não é por menos, os chilenos aparentemente conhecem bem a banda, que já foi para lá quatro vezes e cantaram juntos todos os hits, principalmente as versões de 1517 e Golden Cage, do Whitest Boy Alive, e Remind Me, dos conterrâneos Röyksopp.

Na seqüência, conferimos a banda chilena Astro, que merece atenção. Fizeram um show vigoroso para um público atento que sabia cantar todas as canções. Foi um dos shows mais divertidos do festival.

No outro palco, Yann Tiersen com seu som multi-instrumental e pouco conhecido não intimidou o público, que escutou firme e forte com atenção, mesmo quando esperavam as conhecidas canções trilha de Amelie Poulain.

Enquanto isso, no palco de música eletrônica, Sam, do Maxxi Soundsytem, fazia o público das 9 da noite se achar que já eram 3 da manhã, se acabando nos remixes para lá – bem para lá – de animados. Já o The 2 Bears, metade do Hot Chip, não conseguiu o mesmo entusiasmo misturando house ao hip-hop e soul.

Mogwai, que infelizmente não vem para o Brasil, foi a primeira performance de peso. E de verdade, as guitarras formavam uma barreira sônica que reverberava na espinha dorsal da audiência. O momento foi propício, pois ao lado o sol se colocava atrás dos Andes, deixando o público ainda mais hipnotizado. Foram 11 músicas, com apenas Heard about Last Night, que abriu o show, e Remurdered, do álbum mais recente Rave Tapes. O encerramento ficou com We’re No Here, do primeiro álbum Mr. Beast. Foi épico.

Na via inversa de palco e estilo, The Lumieers caíram como uma brisa folk no meio do post rock cabeçudo. Brisa, aliás, já não faltava mais. Até cobertores eram distribuídos enquanto a galera tentava ranger menos os dentes para acompanhar o Hey Ho.

Tame Impala, o mais esperado do festival, juntou em frente ao palco quase todos os 10.000 presentes. E não desapontaram – até os mais relutantes ao psicodelismo eufórico e contínuo se renderam à performance cuidosamente pensada. A experiência audiovisual no palco, e os drones verdes e vermelhos que sobrevoam a cabeça, formaram um espetáculo que deixaram os chilenos em transe por 1:15. Tame Impala proporcionou uma experiência catártica, encerrando com Apocalypse Dreams, perfeita para a ocasião: “It could be the day that all our dreams come true”.

Depois de retomar o fôlego, tomar uma cerveja, dar uma volta por todos os palcos, foi a vez de conferir os chilenos Matanza, com seu live impecável reunindo mais pessoas do que Icona Pop, que dividia o horário com eles.

Para fechar com chave de ouro, o duo belga (e ‘brasileiros honorários) 2manyDJs, que fizeram escola na arte do mashup, restabeleceram a energia do festival. Migrando sem parar entre sonoridades pop e outras nem tanto, unindo sempre uma pitada de música local e explorando com precisão os sentidos e expectativas da audiência – mostrando que a fórmula não envelheceu. O festival se encerrou com o live do Four Tet, que animava os que tinham conseguindo chegar até às 3h30 da manhã em pé e sequer se preocupavam em ir embora.

Para esse próximo final de semana a garantia que damos é: Tame Impala valerá cada centavo investido. Imperdível.

Por Lalai Persson & Vanessa Mathias (Chicken or Pasta)

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