Em Barcelona, todos aguardam por um novo começo. Embora no dia 13 de maio tenha iniciado a programação cultural do festival que dá o pontapé inicial na agenda de eventos musicais do verão europeu, o Primavera Sound, não é por nenhuma das mais de 300 bandas do line-up que as pessoas de Barcelona esperam avidamente. 

Desde o dia 20 de maio, estudantes e jovens de toda a Espanha estão na rua protestando contra o governo do presidente José Luis Rodrigues Zapatero, do Partido Socialista do Trabalhador Espanhol. Eles pedem revisões nas leis e menos privilégios para os políticos.

A menos de nove meses das eleições gerais, os manifestantes exigem um novo rumo para a política do país, que está passando por um complicado período econômico – hoje, existem quase cinco milhões de pessoas desempregadas na Espanha, e entre os jovens estes números chegam a cerca de 40% da população entre 18 e 35 anos!

É impossível andar por Barcelona sem respirar a atmosfera profundamente política em que a cidade e todo o país estão envolvidos. Manifestantes locais entregam folhetos em inglês para os turistas pelas ruas e não deixam que ninguém se esqueça: mesmo em meio a um grande festival e a diversos outros eventos culturais, o clima é de batalha.

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GÓTICO E MODERNISTA

Curiosamente, foi em clima de melancolia política que começou nesta quarta (25) a programacão musical do Primavera Sound. As atividades deste ano foram iniciadas no Poble Espanyol, vila espanhola construída em 1929 para uma exibição modernista. 

A vila, repleta de prédios antigos, torres góticas e construções arquitetônicas impressionantes, trouxe um clima quase irreal ao festival, que parecia uma dimensão paralela em meio a modernidade mais rude das avenidas que circundam o Poble Espanyol. 

Uma das primeiras bandas a se apresentar foi o Comet Gain, grupo de indie-rock inglês pouco conhecido entre o público, mas que impressionou com uma apresentação agressiva e de instrumentação forte. O clima político e levemente triste de algumas letras era um contraste curioso com a apresentação cheia de energia da banda, que em uma de suas músicas tomava as dores de uma garota da classe média inglesa que sofre para sobreviver a um cotidiano formado apenas por um emprego mediano, uma vida amorosa fracassada e a ausência de sonhos.

Em uma semana política na Espanha, um de seus principais festivais começa a maratona musical pensando em uma vida melhor, com um emprego melhor e sonhos menos prosaicos. 

CARIBOU AO CAIR DA TARDE

Por estar longe de sua principal avenida, o Primavera Sound restringiu as atividades de seu primeiro dia com poucas bandas no Poble Espanyol. Mesmo assim, o público não deixou de ir, aproveitando o tempo para tomar cerveja com os amigos e assistir a alguns shows em um dos locais mais bonitos da cidade.

Nesse clima de confraternização, o Echo & The Bunnymen subiu ao palco para apresentar o repertório de seus dois primeiros álbuns, Crocodiles e Heaven Up Here. Elementos do pós-punk e da psicodelia estavam lá para os fãs, em uma apresentação mais dark e saudosista. Entretanto, mesmo sendo o headiner da noite (tocando por mais tempo do que as demais bandas), o Echo & The Bunnymen não foi a principal atração do primeiro dia do Primavera Sound.

Depois das guitarras do Comet Gain e do Echo & The Bunnymen, parte do público já se preparava para ir embora quando os primeiros acordes distorcidos da apresentação do Caribou mudaram os planos de muita gente. O som denso e hipnótico da banda de um homem só comandada por Dan Snaith trouxe algo que estava faltando para o começo da noite em Barcelona: euforia. Mesmo quem não conhecia o som do Caribou, que no ano passado lançou o elogiado Swim, se impressionou com a arquitetura dos arranjos, completamente malucos e pensados para induzir os sentidos, não a cabeça. Funcionou – parte da plateia que antes só olhava estática para o palco começou a se abraçar.

A acústica privilegiada do Poble Espanyol contribiu para a doideira sônica de Dan Snaith, que aproveitou a animação do público e começou a improvisar nos beats das cancões, aumentando a expectativa da plateia pela apoteose da música, que era sempre adiada ou remodelada de acordo com a vontade do músico. Fechando o show com seu grande hit, a apoteótica Sun, o Caribou já deu um aviso ao Animal Collective, que se apresenta no sábado no festiva, desafiando-os a fazerem uma doideira dessas e deixar o público em transe. 

Na volta do festival, os manifestantes, mais esparsos, continuam em vigília na Praça Catalunha. E Barcelona, que nos próximos dias recebe bandas como Pulp, Odd Future, PJ Harvey, Flaming Lips, Grinderman, The National, Das Racist e Suicide, espera por um recomeço político enquanto mantém efervescente a sua agenda habitual de eventos culturais.

Veja abaixo o Caribou tocando Odessa no Primavera Sound:

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