Festejado no Brasil e no mundo por ocasião do centenário de seu nascimento neste sábado, Vinicius de Moraes nasceu no Jardim Botânico, em 19 de outubro de 1913, e morreu na Gávea, em 9 julho de 1980, mas o bairro mais marcante do Rio de Janeiro na vida e na obra do músico é Ipanema, onde, ainda hoje, cariocas e turistas podem sentir o “espírito” do poetinha.

Nas ruas, nos bares e nas casas de amigos em Ipanema, Vinicius compôs algumas das canções que tornaram a bossa nova famosa em todo o mundo. Foi no bairro, mais especificamente na calçada do antigo Bar Veloso, que, ao lado de Tom Jobim, o compositor se inspirou na beleza de Helô Pinheiro para criar a obra-prima que virou sinônimo de Brasil no cenário musical internacional.

Em março de 1963, Garota de Ipanema foi lançada e, no ano seguinte, saiu no LP Getz/Gilberto, interpretada por Astrud Gilberto em conjunto com João Gilberto e Stan Getz, com a participação de Tom no piano. Dessa forma, Vinicius apresentou Ipanema ao mundo; nada mais justo então que hoje o bairro se curve à genialidade do poeta.

Uma das homenagens veio do próprio Bar Veloso, rebatizado de Garota de Ipanema. A rua do histórico botequim, aliás, hoje se chama Vinicius de Moraes e concentra em poucas quadras algumas belas homenagens ao “branco mais preto do Brasil”, como o próprio se definia.

“Muita gente vem ainda hoje ao bar só pra conhecer o lugar onde Tom e Vinicius gostavam de ficar. Chegam, tiram fotos e perguntam pelas histórias dos dois”, declarou à Agência Efe o garçom Adonias Mendes, que trabalha no Garota desde 1975 e chegou a servir a dupla famosa.

Perto do bar, na mesma rua, está a Toca do Vinicius, espaço que se classifica como livraria e centro de referência da bossa nova. Aberta em 1993, a loja organiza frequentemente shows e encontros musicais, mas, por questão de princípios de seu fundador, não quis “aproveitar a mídia” do centenário do compositor.

“Só quero visibilidade pelo mérito, ou seja, em torno do que efetivamente fazemos. Nada de pegar carona com o poeta amado. Quero visibilidade sempre, pois a Toca é um instrumento de ação política sócio-educacional e porque visa a articulação com a sociedade” explicou Carlos Alberto Afonso, fundador da Toca.

Ainda na rua batizada em homenagem ao músico está o Vinicius Bar, casa de shows intimista onde, pelo menos uma vez por semana, se apresenta a cantora Maria Creusa, uma das intérpretes mais famosas das canções do compositor. Na noite deste sábado, a responsabilidade por lembrar sua obra universal ficará a cargo do Marcos Ariel Trio.

A cereja do bolo desse centenário, no entanto, não está na boemia de Ipanema, mas na exposição Vinicius – 100 anos em cartaz no Teatro Sesi, no centro do Rio, desde a última terça-feira e que poderá ser visitada até o próximo dia 7 de dezembro.

A mostra é composta por mais de 200 itens do acervo que estava guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa e ao qual o grande público não ainda tinha tido acesso. Como o espaço físico é limitado, foi agrupado em tablets e mesas interativas materiais como desenhos feitos por Vinicius na adolescência, obras inacabadas, diplomas da época do colégio, cartas, críticas de cinema e caderneta de telefones, entre outras coisas.

“Há também um painel com a cronologia de sua vida e obra, sua discografia completa e figurinos e maquete do cenário da peça ‘Orfeu da Conceição”, contou à Efe Marina Henriques, que fez parte da curadoria e da produção executiva da mostra.

Segundo Marina, as primeiras reuniões com a família ocorreram no inicio do ano e, desde então, começaram as pesquisas e a escolha do acervo. “Depois de dezembro, vamos levar uma exposição itinerante em formato reduzido para a nossa rede de teatros em todo o estado do Rio”, completou.

Seja nos bares de Ipanema, no centro da cidade ou em qualquer esquina onde alguém puxar um violão para entoar os versos de Garota de Ipanema e Chega de Saudade, a impressão é de que o “espírito” de Vinicius continuará vagando nas ruas do Rio pelos próximos 100 anos.

Rio respira vida e obra de seu eterno poetinha

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