O cenário musical e a cultura pop nunca mais foram os mesmos depois de 1991. Com a explosão do Nirvana e a popularização de bandas como Pearl Jam, Soundgarden, Mudhoney, Alice In Chains, Screaming Trees, as camisas de flanela deixaram de ser apenas um abrigo para o frio da costa noroeste dos Estados Unidos, e as guitarras sujas e barulhentas tomaram a MTV e as rádios de assalto. Enquanto aqueles jovens aparentemente despretensiosos abandonavam os pequenos pubs de Seattle para ocupar arenas e estádios mundo afora, a música sertaneja dominava todas as paradas de sucesso no Brasil. Na contramão, vinham Pin Ups, Second Come, RIP Monsters, Mickey Junkies, Happy Cow, Killing Chainsaw e várias outras bandas nacionais que se inspiravam nos ícones grunge – ou ao menos bebiam nas mesmas fontes. Mas daí para frente, pouco aconteceu. Afinal, o que houve com o grunge no Brasil?

“Faltou qualidade”, sentencia o jornalista e produtor musical Carlos Eduardo Miranda. “Se alguma banda tivesse potencial, teria vingado. Se não fez sucesso, é porque faltou carisma, faltou momento, faltou sorte, faltou alguma coisa”, completa.  Diretor artístico do extinto selo Banguela Records, estruturado em parceria com os Titãs, Miranda aponta os paulistas como os artistas nacionais que chegaram mais próximos do estilo. “Tivemos muitas bandas influenciadas pelo grunge, mas só com [os álbuns] Tudo ao Mesmo Tempo Agora e Titanomaquia, tivemos uma banda grande soando daquela maneira”, relembra.

TITÃS E RAIMUNDOS

Titanomaquia, de 1993, foi o primeiro de uma série de discos dos Titãs produzidos por Jack Endino, produtor de Seattle, mais famoso por ter gravado Bleach, o primeiro álbum do Nirvana. No início dos anos noventa, os Titãs estavam cansados dos exageros da década anterior, e buscavam um produtor que os ajudassem a fazer um disco de rock cru e simples, mas comparável aos álbuns das bandas do exterior.

“Começamos a pesquisar o cenário alternativo, e acabamos conhecendo as bandas grunge antes de virarem moda”, recorda o guitarrista Tony Bellotto. “Entramos em contato com o Jack Endino, e descobrimos ali o cara ideal para o nosso projeto”, conta. Mas, mesmo com as comparações, Tony descarta as influências de Cobain e cia. no som dos Titãs. “Não tivemos uma influência direta do grunge. Foi mais como uma reafirmação do espírito punk, uma autoregulação que o rock tem, uma capacidade de retornar ao caminho certo. Isso veio do grunge”, garante.

No cenário independente do país, pipocavam bandas novas, e não faltavam candidatos ao posto de “Nirvana brasileiro”, mas nenhum deles atingiu amplitude nacional. “Faltava uma banda que chutasse o balde e cantasse em português, o que só tivemos no Brasil com os Raimundos, que vieram depois do grunge”, analisa Miranda. Tony Bellotto concorda: “foi uma época estranha para o rock brasileiro. Coincidiu com uma certa baixa auto estima da galera, e muitas bandas começaram a compor em inglês por aqui. Mas surgiram bandas importantes como os Raimundos, que continham aquele gene punk, muito importante para a permanência e relevância do rock”, avalia.

A visão de quem cresceu no olho do furacão é um pouco mais otimista. Apesar de não considerar o grunge uma fonte de inspiração musical, Digão, guitarrista e atual vocalista do Raimundos celebra o espaço que o sucesso da cena de Seattle criou para o surgimento de novas bandas no Brasil. “O Nirvana não foi a nossa influência, mas foi bom ver as bandas de rock de volta”, comemora. “Quando você tem mercado, as coisas funcionam, e até então só o sertanejo bombava. As bandas da época mostraram que era possível fazer coisa boa só com bateria, guitarra e baixo, sem super produções”, contextualiza.

Os Raimundos não escondem a saudade daquela época. O baterista Caio Cunha, fã de Alice In Chains, reclama da falta de atitude do cenário atual. “Não tem como comparar com o que rola atualmente. Aquelas bandas eram impressionantes”, opinião compartilhada pelo guitarrista Marco Mesquita. “O grunge matou o metal farofa, e trouxe de volta as guitarras sujas e pesadas. Se aquelas bandas tivessem surgido uns anos depois, com o acesso fácil à tecnologia, teria sido incrível, porque hoje temos a tecnologia, mas não temos aquela música”, opina. Digão finaliza: “Hoje todas as bandas são iguais, parecem a mesma coisa. As roupas são iguais, as letras são as mesmas. Parece que eles foram todos a uma loja qualquer e compraram um kit com tudo pronto”.

Influente ou não, é inegável que a relevância do grunge ficou mesmo no passado. “Foi um movimento legal, importante, principalmente por recuperar a essência do rock”, pondera Tony Bellotto. “Mas já passou, né? Foi, como todo movimento, englobado pelo big business”, diz. Miranda concorda. Para o produtor, o grunge ficou mesmo no passado, e se há alguma influência na música produzida no Brasil e no mundo hoje, ficou diluída. “Todos aqueles artistas acabaram virando clássicos como U2 e Metallica. Eles entraram definitivamente para o mundo da música pop, e não têm grande influência sobre a música produzida hoje”, compara.

Se o Brasil carecia de representantes no mainstream durante o auge da onda grunge, o extinto festival Hollywood Rock supriu muito bem a necessidade do público por este tipo de som. A quarta edição do evento trouxe a São Paulo e Rio de Janeiro três expoentes de peso: Nirvana, Alice in Chains e L7. Veja no vídeo abaixo a histórica performance de Smells Like Teen Spirit com a inusitada participação de Flea, do Red Hot Chili Peppers, tocando trompete.




Top 5 “Discos para entender o grunge no Brasil”
por Carlos Eduardo Miranda

Titãs – Titanomaquia (1993)
Produzido por Jack Endino, um dos padrinhos do grunge, Titanomaquia foi “o mais próximo” que uma grande banda brasileira chegou do grunge.

Raimundos – Raimundos (1994)
Foi a primeira banda com influências punk a atingir sucesso nacional após a explosão do grunge.

Little Quail & The Mad Birds – Little Quail & The Mad Birds (1994)
Apesar do som misturar hardcore e rockabilly, a sonoridade crua e suja do álbum foi muito influenciada pelo grunge.

Okotô – Monstro (1993)
Também mais próximos do punk que do grunge, o Okotô fazia músicas em inglês com vocais rasgados e guitarras disctorcidas.

Coletânea “A Vez do Brasil” (1993)
Reuniu Little Quail & The Mad Birds, Graforréia Xilarmônica, Rip Monsters e outros pela primeira (e única) vez em um só álbum. Com o tempo, ganhou status “cult” no meio independente.



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