Marcos Winter é o censor Vicente em Magnífica 70

Em 1973, a música Sangue Latino, dos Secos e Molhados, estourava nas rádios. Médici era o presidente do período de ditadura militar (1964-1985). E a Boca do Lixo entrava em seu auge, que duraria até meados dos anos 80. Repressão e arte andavam lado a lado no período. E nesse contexto em que se passa Magnífica 70, série da HBO, que estrou no último dia 24, dirigida por Cláudio Torres e  Carolina Jabor. 

No Departamento de Censura Federal, em São Paulo, paira o retrato de Médici, o presidente do Brasil. “Filme perturbador. Amontoado vulgar de cenas de sexo e lesbianismo. Esse filme não deveria existir”, diz o censor Vicente, personagem de Marcos Winter, para a chefe do Departamento, dona Sueli, no primeiro episódio da série, depois de assistir à pornochanchada A Devassa da Estudante, produção da Boca.

Dora Dumar, (Simone Spoladore), a atriz da pornochanchada

Vicente fica obcecado com a interna de um colégio de freiras,vivida pela atriz Dora Dumar (Simone Spoladore) que é obrigada a tirar a roupa diante da madre superiora. A cena lhe traz mensagens perturbadoras do passado. Essa obsessão vai levá-lo até a Boca do Lixo, onde se envolve com ela e com Manolo (Adriano Garib), da produtora Magnífica. Com essa aproximação, o censor vai se tornar diretor de cinema da Boca.

Essa é a premissa da que tem no elenco ainda Maria Luiza Mendonça (Isabel, mulher de Vicente), Paulo Cesar Pereio (General Souto, genro de Vicente), Joana Fomm (Dona Lúcia, mãe de Isabel), Bella Camero (Ângela), Rogério Froes (Seu Lorenço), Stepan Nercessian (Larsen), Pierre Baitelli (Dario), André Frateschi (Flint).

A Boca abrigava escritórios de produtoras e distribuidoras, reunindo em seu entorno produtores, distribuidores, atores, atrizes e diretores em torno de uma incipiente, porém promissora, indústria cinematográfica brasileira, que durou mais de duas décadas, do fim dos anos 60 ao fim dos anos 80. O principal produto era a pornochanchada, mas havia espaço para produções mais “cabeça”.

Selecionamos 10 fatos sobre a Boca do Lixo, o polo cinematográfico paulista que agitou a cultura underground por mais de 20 anos.

1 – Nome de batismo 

A região foi batizada nos anos 50 pela crônica policial, quando começou a ser reduto da prostituição e crime, sendo abandonada pelas famílias de classe média que lá viviam.

Imagem do livro Rua do Triumpho, de Ozualdo Candeias. (foto:Reprodução/ozualdocandeias.com.br)

2 – Localização

Situada no quadrilátero entre as ruas do Triunfo, Aurora, Santa Efigênia, Andradas e Vitória, próxima à estação da Luz, região central de São Paulo, a região abrigava, desde a década de 20, distribuidora de filmes, por ser próxima à estação ferroviária. O bar e restaurante Soberano virou point dos artistas, produtores, diretores que por lá circulavam.

3  –  Primeira aparição no cinema

O filme O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, foi ambientado na Boca, o “bairro mais perigoso de São Paulo“. Uma mulher é espancada, um homem cortado à navalha. É a Boca do Lixo, anuncia o narrador em off na abertura do longa.

4 – Pornochanchada 

Rejeitados por críticos e circuitos exibidores mais refinados e cultos, os filmes produzidos na Boca eram basicamente pornochanchadas, gênero híbrido entre a comédia pastelão  (chanchada) e o pornô. Existiram variantes do gênero: pornodramas, pornopoliciais, pornoterrores.

A pornochanchada foi uma expressão nacional da onda de liberação de costumes, revolução sexual, à brasileira. As tramas giravam em torno da paquera, virgindade, adultério, dilemas do “dar e comer”, viúvas carentes e fogosas.

A Viúva Virgem (1972), de Pedro Carlos Rovai, com Adriana Pietro, Carlos Imperial e Jardel Filho é um dos expoentes do gênero.

5Produção intensa 

Na década de 70, o polo cinematográfico produziu 60 dos 90 filmes brasileiros feitos, em média, anualmente. Das 25 maiores bilheterias do cinema brasileiro entre 1970 a 1975, nove eram pornochanchadas. O lucro era médio, na medida em que os investimentos também o eram, assim dava para alimentar o esquema de produção. Nunca houve investimento numa política autoral, como no Cinema Novo.

6 – Capitais privados 

Os recursos vinham de investidores privados, em vez dos recursos advindos de órgãos do governo que financiavam o cinema nacional. Portanto, se criou uma independência financeira estatal. O filme dependia basicamente da bilheteria para se pagar. Ou seja, quanto mais prestígio e público, melhor. Por isso, chegou a ser apelidada de Hollywood brasileira.

 7Flerte com o Cinema Marginal 

A ideologia da contracultura (sexo, drogas e rock&roll), surgida nos Estados Unidos em meados da década de 60, e o diálogo lúdico e intertextual com a narrativa clássica hollywoodiana e a chanchada brasileira marcaram os filmes produzidos sob o estilo do Cinema Marginal.

Diretores como Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, Jairo Ferreira, Ozualdo Candeias foram pioneiros. O filme-farol é O Bandido da Luz Vermelha (1968). Marginal Cafeste foi uma vertente desse tipo de cinema. A proposta era filmar em estilo ágil e barato. O modo de produção abre as portas para a filmografia erótica da Boca do Lixo.

8- Star System 

A Boca foi responsável pelo único ‘star system’ do cinema brasileiro, precário porém excitante. Atrizes como Nicole Puzzi, Vanessa Alves, Zilda Mayo, Noelle Pine e Eny Novakosky estrelaram as principais pornochanchadas do período.

 

9 – Sexo explícito 

A partir da década de 80,  invasão de filmes de sexo explícito estrangeiros e o esgotamento da pornochanchada, os produtores da Boca passaram a ver nesse filão do filme pornô um investimento seguro.  Em 1984, dos 105 filmes produzidos no país, 69 eram de sexo explícito. No total, foram feitos mais de 500 produções.  Oh! Rebuceteio (1984), de Cláudio Cunha, foi um dos primeiros filmes nacionais com sexo explícito.

10 – Séries, documentários e livros 

Boca foi tema de série da Globo, Boca do Lixo (1990), de Sílvio de Abreu, documentários de curta e longa-metragem e livros, como Rua do Triumpho, de Ozualdo Candeias

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