Melancolia, filme de Lars von Trier com Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg

Kirsten Dunst como Justine em foto promocional de Melancolia, de Lars von Trier. Imagem é referência à pintura Ophelia, de John Everett Millais

Difícil dizer se Lars von Trier realmente levaria a Palma de Ouro em Cannes este ano. Mais difícil ainda não culpar a polêmica de suas declarações (mal interpretadas pela imprensa, como de costume) sobre Nazismo. O fato é que Melancolia é um dos melhores filmes do cineasta e faz jus a sua descrição: um belo filme sobre o fim do mundo. Talvez, sem o alarde do título “persona non grata”, seu filme tivesse maior êxito (embora a imprensa estrangeira tenha feito mais elogios do que críticas). A dica é esquecer a polêmica e mergulhar na fábula.

A abertura é de tirar o fôlego. Por 10 minutos – o tempo de duração do prólogo da ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner, que serve de trilha sonora – o espectador é tomado por várias cenas em câmera lenta, como se fossem pinturas em movimento. Justine (Kirsten Dunst) encara a câmera com um profundo olhar de tristeza enquanto pássaros mortos caem a sua volta. Claire (Charlotte Gainsbourg) carrega o filho Leo (Cameron Spurr) com dificuldade por um campo de golfe. Kirsten, vestida de noiva, aparece amarrada a fios de lã e depois sendo levada pela correnteza (referência clara à pintura Ophelia, de John Everett Millais). Um cavalo cai em silêncio. É o anúncio do fim do mundo.

Quando Melancolia foi anunciado, Lars declarou: “Nada de finais felizes”. Estava sendo irônico, como de costume. À primeira vista, a extinção do mundo é algo completamente trágico e apavorante. Mas não para sua protagonista, Justine, vivida por Dunst em seu melhor papel. A parte 1, focada na melancólica personagem, mostra sua relação com os rituais de passagem de todo ser humano e a vontade de pertencer a um mundo “politicamente correto”. Casar? Por que? Diante de toda a suntuosidade do castelo onde acontece a recepção, ela se vê perdida entre sorrisos e discursos familiares que não fazem o menor sentido. É obrigada a ser feliz. Está suscetível, frágil, com medo de dar um passo importante.

Dunst roubou a cena com suas tristes expressões em As Virgens Suicidas, há exatos 10 anos, mas caiu no óbvio hollywoodiano em atrocidades como Wimbledon – O Jogo do Amor e Um Louco Apaixonado, além, é claro, da trilogia Homem-Aranha. Em Melancolia, mostrou sua versatilidade e fez valer o prêmio de Melhor Atriz em Cannes. É dela o papel que seria de Penélope Cruz, a quem von Trier agradece nos créditos do filme. A ideia para o roteiro partiu de uma conversa com a atriz espanhola sobre a peça Les Bonnes, do dramaturgo francês Jean Genet, na qual duas empregadas matam a patroa. “Mas eu não faço nada que não tenha saído de mim”, disse von Trier. “Então eu tentei escrever algo para ela. O filme é na verdade baseado nas duas empregadas que eu transformei nas duas irmãs do filme”. A atriz desistiu do projeto para fazer… Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (!).

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Talvez, o que tenha feito Kirsten ganhar a Palma de Ouro e não Charlotte Gainsbourg, que também emociona com sua fragilidade exposta na segunda parte, sejam as nuances que deu à personagem desde o casamento até o pré-destinado fim do mundo. É dela o alterego de Von Trier. “Acho que Justine é muito parecida comigo. Ela é bastante baseada em mim e em minhas experiências com profecias de fim dos tempos e depressão”. Justy, como é carinhosamente chamada pela irmã, é melancólia e não consegue encontrar seu lugar no mundo, logo, o casamento se torna um desastre. Na segunda parte, focada em Claire (Gainsbourg), ela está mergulhada na depressão. Nada faz sentido. Saber que o mundo vai chegar ao fim a deixa confortável. Não há nada a perder. A maneira como ela sai da fragilidade inicial para uma madura conformidade à iminência do apocalipse é que é o segredo do troféu.

Para fazer o contraponto, Lars concentrou a segunda parte em Claire, interpretada com maestria por Charlotte Gainsbourg (vencedora da Palma de Ouro de Melhor Atriz por outro filme do cineasta, Anticristo), que poderia dividir o prêmio com Dunst. Sua mudança de comportamento do casamento para a ameaça de colisão do planeta Melancholia é nítida. Prática e controladora, Claire vive todos os rituais e tem uma vida estável, um marido, um filho, os bens materiais, o que significa que tem mais a perder com o fim do mundo. É quando ela se dá conta da sua mortalidade. “Mas onde Leo vai crescer?”, pergunta ela à irmã. Sua personagem, então, é reduzida à ansiedade, nervosismo e insegurança. Deposita toda sua fé no marido John, um milionário e astrônomo amador vivido por Kiefer Sutherland. Seus surtos de desespero são muito convincentes. Enquanto Justine é um espelho do cineasta, Claire é o retrato da reação da maioria das pessoas. Seu último pedido, que inclui uma brega taça de vinho, uma canção e alguns doces no pátio, é repreendido pela irmã.

Os outros personagens são meros coadjuvantes, mas estão todos bem – com destaque para os pais, o desligado Dexter (John Hurt) e a amarga Gaby (Charlotte Rampling), que roubam a cena no climão do casamento. Kiefer Sutherland surpreende como o marido racional, que encontra equilíbrio, fé e conforto na ciência (outros temas que incitam discussões no filme). Ele é o típico personagem masculino do cineasta. Seu destino, apesar de previsível e covarde, consegue emocionar (e assustar) o espectador. 

É a partir da perspectiva dele, das duas irmãs e Leo, que acompanhamos o suspense do fim do mundo. Não há notícias, não há o pânico coletivo, tão abusado em filmes hollywoodianos. Só um site com informações da rota de colisão acessado por Claire e Leo. O apocalipse de Lars é diferente, está na mente de seus personagens e na forma como reagem a ele. Enquanto em Anticristo seus atores são levados a extremos de nudez e violência, aqui ele segura toda a polêmica e contrapõe a moral das irmãs. É o psicológico em jogo. O destino de Justine é a catástrofe, mas é exatamente onde ela encontra o verdadeiro sentido. Pela primeira vez, von Trier entrega ao seu alterego feminino uma resposta positiva da tragédia. Uma visão romântica (no verdadeiro sentido da palavra, com referência ao Romantismo Alemão, influência declarada de Lars) da sua mortalidade. O final, arrebatador, vai ficar na memória de muita gente por dias, meses.

Crítica: Em Melancolia, Lars von Trier discute rituais e medos na iminência do fim do mundo

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