Por mais que o diretor Marcus Baldini e a protagonista Deborah Secco tenham tido a preocupação de evitar qualquer apologia ou tributo, fica difícil assistir Bruna Surfistinha sem ter a impressão de que eles estão contando a história de uma heroína.

Bruna praticamente não tem defeitos. No início, é uma vítima de bullying e de um irmão bruto e grosseiro. Depois, incompreendida pelas colegas do privê, o primeiro lugar onde se prostitui. Mas ali começa a sua virada: além de conquistar a amizade das meninas, logo se torna a mais popular e cobiçada pelos clientes.

A partir daí, sai de baixo. Ninguém é páreo para ela. Depois de descobrir o mundo da prostituição de luxo e lançar o blog, então, ela se transforma de vez em uma verdadeira rockstar, com todos os excessos e ataques de egocentrismo a que tem direito. A diferença é só o “palco”, que no seu caso é a cama.

Mas nem quando acontece a queda, e Bruna se sujeita a uma vida terrível, deixa de ser novamente heroína: afinal, ela prefere a mais sórdida das situações a pedir ajuda, seja para o cliente-namorado, para a amiga que esnobou ou para a família, para onde ela nunca mais quer voltar.

E nem quando é “resgatada pelo amor” ela desiste. Pela vigésima ou trigésima vez, repete seu bordão de que fugiu de casa para nunca ter que depender de ninguém blablabla, desta vez para justificar porque não quer ser sustentada pelo homem que quer viver com ela.

No final das contas, a mensagem de “a ex-menina desajeitada e rejeitada que chegou lá sozinha” é repetida à exaustão. Mas a questão que nunca é respondida é: “lá” onde? Bruna ganhou muito dinheiro, tem um livro de sucesso, agora um filme sobre sua vida…absolutamente tudo conquistado graças à prostituição Só que, em nenhum momento, o filme dá a impressão de que ela dependa dos clientes. É sempre o oposto: o que seria dos homens sem a poderosa e inigualável Bruna?

Assim, realmente, fica um pouco complicado não parecer uma apologia ou tributo.

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