Imagens da carreira do ator Márcio Vito, de 5x Favela e A Alegria

Ator Márcio Vito durante sua passagem por Cannes, com os filmes 5x Favela - Agora por Nós Mesmos e A Alegria

Chegar em Cannes com dois filmes, um produzido por Cacá Diegues e outro independente, não é para qualquer um, principalmente quando você ainda não é conhecido do grande público. É o caso do ator Márcio Vito, que chegou à premiação com 5x Favela – Agora por Nós Mesmos e A Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande, que abre nesta quarta-feira (24) o 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Em A Alegria, Márcio interpreta Cezar, um bom pai de uma filha com 16 anos (Tainá Medina), que passa por diferentes dilemas comuns à adolescência, como as tentativas de ser feliz e o aparecimento de um novo amor. Com personagens distintos, Vito fez o público rir em 5 x favela, no episódio Acende a Luz, na pele do eletricista Lopes, boa praça, que se vê responsável em trazer a luz na comunidade na noite de natal. Personagem este, que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante no III Festival de Cinema de Paulínia.

No ano passado Márcio ganhou o prêmio de menção honrosa de ator no Festival Internacional de Cinema de Brasília, com o filme No meu lugar. Como entrevistador teve sua estreia na TV, com o programa Presença Brasileira em Cannes, sob a direção de Quito Ribeiro, Eduardo Valente e também do próprio Márcio. A série tem quatro episódios, entrevistas com os principais profissionais brasileiros que caminharam pelo tapete vermelho da premiação francesa e foi exibido pelo Canal Brasil.

No teatro, o ator está em cartaz com a peça Histórias de amor líquido, ao lado de Ana Kutner, Bel Kutner e Natalia Garciez, com direção de Paulo José. No espetáculo, Márcio se reinventa em três personagens: um casal que faz uma visita insólita ao filho, um vigia que foi abandonado por sua mulher por ser alcoólatra e um empresário que busca relacionamentos ligeiros para alavancar seus negócios. O texto fica a cargo de Walter Daguerre, até dia 19 de dezembro, no Rio de Janeiro.

Além do cinema e teatro, Márcio Vito já atuou em diversos programas da televisão brasileiro, como Força Tarefa, Caras de pau e A Grande Família e também nas novelas. O Virgula aproveitou o Festival de Brasília para bater um papo com Márcio sobre a presença no evento, a passagem por Cannes com os dois filmes, cinema brasileiro e muito mais. Confira abaixo:

Você esteve  este ano com dois filmes em Cannes, o 5x Favela – Agora por Nós Mesmos e A Alegria, sendo um produzido pelo consagrado Cacá Diegues e outro independente. Como foi a experiência de estar lá? E como você avalia trabalhar em duas produções de visibilidades diferentes?

Foi recompensador ao extremo. Estar em Cannes é como um rito de passagem para quem gosta de cinema, estando como ator convidado e representando os dois filmes brasileiros selecionados é de um privilégio ímpar. Além disso, Eu, Quito Ribeiro e Eduardo Valente (diretor de No Meu Lugar, filme no qual atuo e que esteve na seleção oficial de Cannes em 2009) por meio da Luz Mágica de Caca Diegues e Renata Magalhães, gravamos um programa para o Canal Brasil intitulado Presença Brasileira em Cannes. A experiência de estar em Cannes foi muito rica, sobretudo pelos diversos pontos de vista que pude exercer no festival. Sobre as intercessões entre 5x Favela” e “A Alegria” para além de serem produções de alto valor artístico realizadas por jovens diretores, é para se ressaltar o fato de ambos terem sido produzidos no Rio de Janeiro. Aliás, ser um ator carioca que passeia entre trabalhos de cinema, teatro e Tv é outro privilegio que venho desfrutando.

Qual é a importância pra você como ator participar do Festival Brasileiro de Brasília, em um  filme como A Alegria? Como foi fazer parte deste elenco e desta produção?

A gente sempre quer ser reconhecido em nosso território. Na França, a impressão dos produtores e atores internacionais era de que eu seria um dos atores mais bem relacionados do país para estar em dois filmes de linhas artísticas tão diferentes. Estar aqui no Festival de Brasília, ao invés de só acompanhá-lo pelo noticiário é fundamental para criar minha identidade de artista brasileiro. Foi lindo ver na abertura do festival o filme Lilian M – Relatório Confidencial (1975),com a presença da atriz Célia Olga Benvenutti, na plateia. Ouvir o discurso emocionado do Carlão Reichenbach (diretor do filme e homenageado nesta edição do festival), e ver sua generosidade e carinho com Ignácio Araujo e Sara Silveira.

Estar neste festival tradicional com um filme como A Alegria feito por uma galera talentosa e capitaneada por Marina Meliande e Felipe Bragança é também muito especial. Fico feliz em poder vir pela primeira vez ao evento com um filme que me dá muita vontade de ver e rever sempre. Em Cannes assisti o teste de projeção, a sessão para imprensa e a exibição de gala. Estou ansioso para rever o filme. Acompanhar como nascem os poderes do espectro da folia de reis e da menina que atravessa paredes. Rever o nascimento destes jovens super-heróis. Quando penso no filme, ele vem misturado à trilha de Lucas Marcier que é maravilhosa. O filme é muito bacana. A fotografia, as atrizes e seu clima inebriante e inspirador.

Quando conversamos com Samuel de Assis (que também esteve no 5x Favela), ele disse que não quis assistir ao original de 1962. Você fez o mesmo processo ou chegou a ver o filme para ajudar na composição da versão feita pelas  pessoas da favela?

A primeira coisa que fiz foi ver o filme original. Sou um admirador do trabalho de cinema e de atores em geral. Samuel, aliás, é um ator magnífico e qualquer coisa que ele utilize como método é para ser considerado porque dá muito certo. Mas sou virginiano e gosto de ver tudo. Gosto de saber quem o autor pensou que faria bem. Gosto de saber o que iria propor alguém que gostaria de fazer o mesmo papel que o meu, enfim, vi o filme gosto de cada história, ali. Mas o Lopes veio de outro lugar.  

Além da visibilidade para a produção, as passagens por Cannes trouxeram convites para outros filmes ou outras oportunidades?

Sim, muitas oportunidades de trabalho em diversas áreas de atuação. Cannes abriu também um campo de trabalho internacional, mas o grande barato vem sendo dar continuidade ao trabalho de teatro que realizo no Rio de Janeiro, e o melhor convite de todos foi poder realizar, com Felipe Bragança na direção, as filmagens do prólogo do Desassossego (filme que fecha a trilogia Coração no fogo que já tem os longas A Fuga da Mulher Gorila e A Alegria).

Diante de tantos personagens em 5x Favela, qual foi o seu primeiro pensamento quando anunciaram seu nome como vencedor do prêmio de Melhor Ator Coadjuvante em Paulínia?

Muitas coisas. A primeira delas e mais forte, é de que era um prêmio para o elenco inteiro do episódio Acende a Luz, um prêmio para Luciana Bezerra que dirigiu este episódio. O Lopes (personagem que me deu o premio de ator em Paulínia) é fruto das relações constantes com diversos personagens, todos muito bem delineados com a ajuda de Camila Amado. Samuel de Assis, Silvio Guindane, Hugo Carvana, Tiago Martins, Jaime del Cueto, Luciano Vidigal e Gregorio Duvivier, todos poderiam receber este prêmio. Houve ali um carinho sobre o coletivo, sobre o que o personagem passa para além do trabalho. Claro que levo a sério o que proponho como ator e fiz o Lopes de maneira que poderia ser um trabalho delicado, sem querer aparecer demais. Um tímido que faz rir pelo constrangimento mais do que pelo humor que imprime realmente. É lindo imaginar que isso também é visto por um júri, e nesse sentido o prêmio é  também para quem está preocupado em ajudar a contar uma historia mais do que com sua imagem de ator em cena.

Sua carreira está crescendo cada vez mais  no cinema brasileiro. Com quais diretores você gostaria de trabalhar? E se pudesse escolher um internacional, qual seria?

É uma questão que vai além da vontade. Tem que ver que história se pretende contar e como eu poderia realmente servir a ela de uma maneira eficaz. Assim por afinidade e admiração, Eduardo Valente no que ele quiser inventar de fazer além de Felipe (Bragança) e Marina (Meliande) sempre. Gostaria mesmo de trabalhar com muitos diretores. E como há tempo para tudo. Envelhecer vai me fazer bem, para ser melhor no que posso oferecer como ator a Karim Aïnouz, Jose Eduardo Belmonte, Hilton Lacerda, Matheus Nachtergaele, Esmir, Juliana Rojas e Marco Dutra, Paula Gaitan, Helena Ignez, Caetano Gotardo, Sergio Machado, Marcelo Gomes, Carol (da Sara Silveira) enfim muitos mesmo com que ainda não trabalhei e muitos outros com quem já tive oportunidade de trabalhar, mas amaria ter nova chance. Walter Lima jr (fiz com ele A Ostra e o Vento), Murilo Salles (participei de Seja o que Deus quiser), Marcos Bersntein (O Outro Lado da Rua) e Lucia Murat (Quase dois irmãos). E se pudesse escolher um internacional ficaria entre Sangsoo, Apichatpong e Mathieu Amalric de Tournée, que vi e amei em Cannes (aliás, atores que dirigem, toparia qualquer um pela experiência de vê-lo pensar um filme).

A revista Bravo fez uma matéria recente em que questiona o porquê do cinema brasileiro não se inspirar no cinema argentino e fazer um cinema mais autoral. Você concorda com a abordagem ou acredita que o cinema brasileiro está na sua melhor fase?

Não li a matéria. Mas não acho que o sucesso do cinema argentino seja só isso, e não acho que o cinema brasileiro não seja autoral.

Se você pudesse definir o cinema brasileiro em três filmes, ao seu gosto, claro, quais seriam?

Definir não, mas posso dizer três filmes que tenho em casa e gosto muito: Mutum, Cidade de Deus e Inocência.

A versatilidade tem marcado sua carreira como ator. Vários trabalhos foram realizados em televisão, teatro e cinema nestas duas últimas décadas. Por qual delas o seu amor cresceu com o passar dos anos? Qual deles você não vive sem?

Cinema, TV e Teatro são pernas de um mesmo tripé, que me sustentam equilibrado e que ajudam a aprimorar minha arte. Não viveria bem se precisasse abrir mão de qualquer uma destas frentes de atuação. Vivo em TV (basicamente com Marcos Schechtman), Teatro e Cinema um processo de criação muito generoso onde posso escolher o que é melhor para mim dentro da proposta maior de cada trabalho.

No seu currículo constam a direção de Xuxa e os Duendes e Xuxa e os Duendes 2 – No Caminho das Fadas. Pretende voltar à cadeira de diretor?

Nestes filmes fiz assistência de direção de Paulo Sergio Almeida, com quem aprendi muito sobre cinema e vida na arte. O IMDb me credita como diretor de segunda unidade. Isto se resume a filmar fundos para serem usados em fundo chroma-key e fazer alguns testes de efeitos especiais com a supervisão de Marcelo Siqueira da Casablanca. Não penso em dirigir cinema, mas vou fazer muitos experimentos nessa linha ainda. Tanto em teatro quanto em TV e cinema. Mas eu seria sempre um ator que dirige, nunca um diretor no sentido mais artístico e amplo da função. O que sei, é que ainda tenho muito a contribuir como ator e isso em si já não está simples.

Entrevista: ator Márcio Vito fala sobre festival de cinema de Brasília, Cannes e cinema brasileiro

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