A película está morrendo. Originada para o uso em cinema comercial no início do século 20, a tecnologia foi aperfeiçoada pelos irmãos Auguste e Louis Lumière a partir da criação de George Estman, criador da Kodac e do filme fotográfico. O consenso já chegou há tempos entre cineastas, distribuidores, donos de cinema e saudosos cinéfilos, para quem a memória tem valor afetivo e estético – tal qual o vinil para os audiófilos.

Nos Estados Unidos, a situação da película é crítica. A Paramount parou de produzir filmes em película, e a Kodak está prestes a fechar sua fábrica de películas – cineastas como Martin Scorcese e Quentin Tarantino estão tentando salvá-la. No país, o maior mercado de cinema do mundo, 92% das salas de cinema são digitais e 90% da produção cinematográfica é digital.

No Brasil, 45% das salas são digitais, mas o número tem crescido exponencialmente, a partir dos centros urbanos e em direção ao interior. No Rio de Janeiro, um acervo de filmes em película com 500 obras – com preciosidades como uma cópia em 16mm de O Bandido da Luz Vermelha (1968, de Rogério Sganzerla) e uma cópia de Roma Cidade Aberta (1945, de Roberto Rossellini) pode desaparecer e está em condições precárias. Até o momento, houve interessados, como o Instituto Moreira Salles mas ninguém comprou o acervo, que pertence ao Grupo Estadão.

Em São Paulo, poucos cinemas exibem filmes em película, já que trazer os rolos analógicos é custoso. Casas como o recém-reinaugurado Belas Artes, o Itaú Cinemas, o Cinesesc e O Reserva Cultural, todos nas imediações da avenida Paulista, estão entre elas, com projetores que resistem às mudanças do tempo. 

Contudo, a tecnologia digital não parece alcançar as exigiências de profissionais da área. O cineasta Marco Dutra (Quando Eu Era Vivo, Trabalhar Cansa) já trabalhou com película e digital, mas acredita que os cinemas precisam de melhores equipamentos – e cópias – para exibir filmes digitais. ” Sinto que ainda não estamos educados o suficiente para reconhecer quando somos enganados e colocados diante de uma imagem digital de baixa qualidade”, afirma. “Muitas salas fazem isso, e somos levados a crer que “cinema é assim”, quando na verdade muitos filmes estão sendo apresentados em condições indignas – isso em qualquer lugar do mundo, não falo só do Brasil”, frisa.

O músico e cinéfilo formado em rádio e TV Maurício Hornek concorda. “Nas mostras que acontecem no CCSP, Cinemateca, ver um filme em digital (como exibição em DVD ou de arquivo baixado da internet) não faz sentido, por que você vai se locomover da sua casa até lá, pagar o ingresso (mesmo que seja um real) para ver algo que você assiste em casa?”, questiona. “Há quem argumente que mesmo assim você estará tendo a experiência do cinema, mas discordo, oportunidades de ver um filme em 35 mm não faltam, e tem a qualidade horrível de muitas dessas exibições, pegam um arquivo baixado de internet, feito para ser visto na tela do computador ou da TV, e exibem numa tela grande, deformando completamente a imagem”, explica.

Simone Yunes, do Cinesesc – casa na rua Augusta, em São Paulo, dedicado a mostras de cinema – pondera sobre a qualidade do cinema digital. “Depende do que você chama de digital. Nós temos um projetor 4k, logo se a cópia em DCP vier em condições adequadas é maravilhoso”, diz. Mesmo assim, acredita que o que atrai o público é a qualidade da mostra, e não o formato no qual ela será exibida.

Mauricio, que acompanha a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e diversas outras mostras pela cidade, discorda. “As cores da película, são mais nítidas, as texturas são mais aparentes”, aponta. “O digital dá ao filme um ar de falso. Filmes em 2.35:1, aquele formato em que a imagem ocupa toda a tela do cinema, com bordas pretas envolvendo a imagem pois eram arquivos digitais, isso tira muito do filme”, garante.

O diretor de fotografia Ricardo Della Rosa, que recebeu o prêmio Bronze Frog pelo filme Casa de Areia no festival Cameraimage, na Polônia – considerado o mais importante festival de cinematografia do mundo – é do mesmo time. “Existem alguns clássicos que me fazem cruzar a cidade para assisti-los projetados [em película], mas sem stress”, afirma.

Jean-Thomas Bernardini, dono da distribuidora Imovision e do cinema Reserva Cultural, na avenida Paulista, em São Paulo, ainda não se acostumou com a projeção digital e mantém projetores de película 35 milímetros em todas as suas salas, bem como digitais. “A película vem se deteriorando com o tempo, o digital não, mas novinha a película é um espetáculo!”, explica. Contudo, é realista e acredita que a película está com os dias contados.

Chico Fireman, crítico de cinema do UOL, também prefere a película, mas acredita que a tecnologia se aprimorou nos últimos anos. “Há três ou quatro anos, eu fugia de qualquer cópia digital exibida em festivais de cinema porque elas eram ruins mesmo. Hoje há cópias em DCP belíssimas, em alta resolução, que mantêm cores e texturas”, frisa.

Em sua opinião, outro fator que contribui para o desaparecimento da película é o desconhecimento dos espectadores – em especial os mais jovens – sobre os detalhes técnicos do cinema. “Acho que o público não vai saber nem se é em DVD. As pessoas, em geral, não têm muita noção. Acho ruim porque é um estímulo para que eliminem a película mesmo. Espero que até lá as cópias digitais sejam maravilhosas”, defende. Marco Dutra concorda: “Espero que as salas não demorem para atualizar os equipamentos (e cuidem da manutenção deles)”.

Valor afetivo

No set de filmagem, Ricardo Della Rosa ainda prefere filmar em película. “Confesso que filmar em película ainda me passa a impressão de ter um oficio mais nobre”, explica. E garante: o valor da película atualmente é mais de memória. “Memória afetiva com certeza, minhas filhas não gostam nada de assistir filmes com grãos”, revela.

Marina Alves, especialista em novas mídias e cinéfila de carteirinha, defende o valor da memória. “Um filme em película quando já foi muito exibido acaba ficando com aquelas “ranhuras” na tela. Perde qualidade? Sim. Saber que aqueles rolos já rodaram o mundo dá um gostinho especial a sessão”, garante. Chris Peterman assina embaixo. “Assim como o registro em vinil, em LP, é muito mais sincero ao momento da gravação”, explica. Para ele, o cinema digital “a imagem alcança precisão milimétrica, mas de forma asséptica, inodora, precisa – digamos que assexuada. Os barulhinhos do vinil e os pequenos riscos e talvez saltos da exibição em película fazem parte tanto da experiência quanto da poesia audiovisuais”, determina.

Mesmo assim, ele acredita que em breve a película será “exclusivamente peça de museu e da história”. E a força do tempo, pelo jeito, é implacável.

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