Na última segunda-feira (10), o Porta dos Fundos – programa humorístico online que não enrubesce ao fazer piada sobre Jesus Cristo ou fantasias sexuais absurdas – venceu o tradicional prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), na categoria de Melhor Programa de Humor. Para Fábio Porchat, roteirista, ator e um dos fundadores do Porta dos Fundos, o fato de o prêmio ir pela primeira vez para um programa de internet (e não de TV) aponta para um futuro promissor da comédia no Brasil.

“O humor na internet possui a liberdade que ele nunca terá na televisão aberta ou fechada. Na internet, você pode brincar com marcas e pessoas específicas, você pode falar palavrão”, explicou o humorista, que também assina textos para programas de TV globais como A Grande Família e Esquenta.

O Porta dos Fundos nasceu há apenas quatro meses, como um meio de Porchat e seus colegas darem vazão a um tipo de humor que dificilmente teria espaço em emissoras de TV. O programa, cujos vídeos estão hospedados no YouTube e no site Kibe Loco, ganhou fãs rapidamente.

Em sua primeira semana de existência, a produtora lançou um vídeo satirizando o atendimento “sob pressão” dos restaurantes Spoleto. Ele espalhou-se pela internet e chamou a atenção até dos executivos da rede de fast-food, que gostaram do trabalho e decidiram encomendar vídeos à Porta dos Fundos, para promover a marca. A ação conferiu ainda mais evidência ao programa, cujos vídeos no YouTube já tiveram, até hoje, mais de 40 milhões de exibições.

Confira, a seguir, o bate-papo com Fábio Porchat, que falou sobre sua experiência com o Porta dos Fundos.


O que significa para você o fato de, pela primeira vez, o prêmio de Melhor Programa de Humor da APCA ser concedido a um programa de internet?

Isso mostra que a internet não é mais o futuro, ela é o presente. Quando você faz um trabalho sério, com qualidade não só técnica, mas também artística, consegue uma repercussão até maior que a da televisão. Na internet, você tem uma liberdade que permite atingir lugares que a televisão aberta não consegue. É um passo muito importante para o humor, de um modo geral.

Tendo trabalhado como redator de programas da Globo como o Zorra Total e Os Caras de Pau, como você compara o humor feito para a televisão com o produzido para a internet?
O humor na internet tem uma liberdade que nunca haverá na televisão aberta ou fechada. Você pode brincar com marcas e pessoas específicas, você pode falar palavrão. Esse é o principal ponto. Além disso, na internet, as pessoas é que vão atrás do vídeo, e esse público é diferente daquele que está assistindo à televisão. Mesmo assim, as emissoras ainda tratam a internet como se fosse uma concorrente de menor qualidade.

O Porta dos Fundos já fez piada com alguns assuntos cabeludos. Vocês impõem algum tipo de limite para o humor? Há algo que não abordariam?
A gente não tem medo do politicamente incorreto. Queremos fazer piada com o que achamos engraçado. Se rimos com os vídeos que estamos fazendo, é só disso que precisamos. Já falamos sobre religião, sobre a Ku Klux Klan, sobre muitos assuntos que poderiam ser tabus ou difíceis de lidar e sempre tivemos grande aceitação do público. Além disso, somos cinco cabeças pensantes que se unem para discutir e aprovar textos. Por isso, é difícil alguma coisa mais agressiva ou fora do tom passar sem ser notada.

Como e por que nasceu o Porta dos Fundos?
Somos cinco sócios; viemos da televisão e já éramos amigos. Nos juntamos por conta da insatisfação com o fato de não podermos fazer, na TV, aquilo que a gente queria fazer de verdade, um tipo de humor com o qual nos identificamos, mas que a televisão não permite por mil razões. Nos reunimos para fechar a empresa e, daí sim, começamos a escrever textos para botar no ar.

Mesmo nos corredores da Globo, você passou a ser mais conhecido por causa do programa?
Eu fico impressionado com a força da internet. Nunca pensei que isso daria tão certo em tão pouco tempo. Hoje, todo mundo me reconhece por causa do Porta dos Fundos. Foi a maior chance que tive de mostrar o meu talento como ator. Tive de botar a cara a tapa na internet, e foi a escolha certa. Sempre que vou gravar no Projac, pessoas vêm falar sobre o programa. Os atores elogiam e querem participar dos vídeos. Recebi respostas positivas da Glória Pires, do Otávio Müller, do Lázaro Ramos, da Débora Bloch

Como surgem as ideias para os roteiros dos vídeos?
Escrevemos sobre maluquices que realmente acontecem com a gente ou até sobre situações hipotéticas, totalmente non sense. Muitas coisas são muito inspiradas no dia a dia e, por isso, as pessoas se identificam bastante. Eu, por exemplo, não consegui trocar minhas milhas para viajar de avião e fiz um vídeo falando sobre isso. Foi uma situação absurda que realmente aconteceu.

Você esperava um barulho tão grande com o vídeo do Spoleto?
Eu sabia que esse vídeo tinha muito potencial para viralizar, mas a internet também é muita suposição. Tem vídeo que a gente acha hilário mas que não dá em nada. E tem vídeo que a gente acha bem trivial, mas que estoura. Esse vídeo, em específico, eu sabia que era bem divertido, porque fala de algo que acontece com muitas pessoas.

Quais outros canais de vídeo ou sites de humor você recomendaria para as pessoas conhecerem?
Tem um canal norte-americano no YouTube chamado B Awesome, que tem umas esquetes bem interessantes. O canal College Humour é outra fonte de inspiração para mim; é muito engraçado. No Brasil, tem o site O Sensacionalista, que vale a pena conferir.

Qual é o seu vídeo preferido do Porta dos Fundos, até hoje?
O vídeo de que eu mais gosto é o Sobre a Mesa. Acho que ele bate em um lugar que quebra qualquer tipo de expectativa do público.

Veja o vídeo do Spoleto:


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