Regina Duarte ficou uma semana sem se olhar no espelho. A protagonista de Gata Velha Ainda Mia, longa-metragem de estreia do diretor Rafael Primot que chega aos cinemas neste fim de semana, sofreu com a caracterização para o filme. Ela usou uma prótese para ficar com os dentes amarelada, teve o cabelo despenteado e cada uma de suas rugas expostas pela ausência de maquiagem.

“Não foi fácil”, contou ao Virgula Diversão. “Me assustou, fez com que eu não visse nada do que estava sendo filmado,a gente costuma revisar a cena no monitor com a equipe técnica. vi a primeira e mais nenhuma. Fiquei chocada. Que horror, pensei, não vou aguentar, não posso ver. Doeu”, disse. “Tirei todos os espelhos, não me olhava, fiquei uma semana como num convento”, completou.

Assista ao trailer:

Regina vive Glória Polk, uma escritora feminista que atingiu seu auge – intelectual e pessoal – nos anos 1960. Mesmo sendo reconhecida internacionalmente e premiada, ela passa dezessete anos sem escrever após perder seu marido, um diplomata austríaco, para Carol (Bárbara Paz), uma jornalista muito mais jovem. Então, volta ao ofício para lançar um último livro, mas não consegue escrever o último capítulo.

Por meio do livro, Glória decide de vingar de tudo que a vida não lhe deu – e também do que lhe foi “roubado” pela ingênua antogonista. A jornalista entra no filme para entrevistar a escritora, o que rende bons e engraçados diálogos. A atuação das duas protagonistas salva até mesmo os diálogos ruins, empostados e pouco naturais. “Eu trazia muitas ideias, de fazer isso ou aquilo de outra forma”, comentou Regina. “Acho que o papel do ator é como o de um músico. Às vezes você percebe que algo está fora do tom, desafinado”, disse.

Ainda assim, a veterana que fez papéis inesquecíveis em novelas como Maria do Carmo em Rainha da Sucata (1990) e Malu em Malu Mulher (1980), achou difícil se adaptar ao ambiente de cinema. “Pensava: como ele vai fotografar tudo isso: Vou ter olheiras o tempo todo, o brilho do olho vai aparecer. Eu rezava à noite para desapagar. ‘Esqueça, Regina, todos os seus referenciais televivos'”, brincou.

Para domar seus os cacoetes da TV no set, o diretor chegou a usar uma técnica brutal: prendeu pesos de academia, de dois quilos cada, nos braços e pernas de Regina. “Eu devo isso totalmente ao Rafael”, elogiou. “No filme eu não ando, eu me arrasto pelo set”, acrescentou. “Mas no terceiro dia eu pedi para ele me libertar e eu fiz direitinho.”

A protagonista falou ainda sobre feminismo, um dos temas mais latentes do filme e com o qual ela se identifica. “O filme foca mais nas frustrações de algumas teorias feministas que não deram frutos, ou deram frutos errados, ou deram frutos que não satisfazem”, analisa. “Um universo que me remete a uma vivência que eu tive, tenho quase 70 anos.

As frustrações, os sonhos de um país, de uma gente, de uma liberdade, de uma utopia… Foi duro, foi difícil, foi doloroso entrar aí”, admitiu. Glória é uma feminista assumidamente frustrada, uma espécie de Simone de Beauvoir que se arrepende ao perder um amor. “Só quero ser amada e servir a este amor”, grunhe, amargurada, em dado momento do filme.

O filme tem ainda a presença pequena, mas marcante de Gilda Nomacce, como a empregada que trabalha para Carol e Glória. Gilda chamou a atenção também em Quando Eu Era Vivo, do cineasta-revelação Marco Dutra. O filme, por sinal, é um primo-irmão de Gata Velha Ainda Mia. Tem elenco estrelado, com Antonio Fagundes e Sandy, forte influência do gênero de terror e foi produzido de forma quase independente, com modestos R$ 150 mil (pouco para cinema). 

Gata Velha Ainda Mia acumula alguns “soluços”. Há duas longas sequências parecidas com videoclipes, que interrompem o suspense e quase nada acrescentam à curva dramática. Adaptado a partir de uma peça de teatro que nunca foi montada, o roteiro começa com ares de comédia e passa pelo suspense, o thriller psicológico e o terror, mas as bruscas reviravoltas prejudicam o andamento do filme.

Mesmo assim, o ineditismo no tema, nas escolhas de elenco e nas interpretações dão a ele um raro frescor frente ao panorama dao cinema nacional.


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"Fiquei chocada", diz Regina Duarte sobre se ver sem maquiagem em novo filme

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