De perto, Jean Grey – ou melhor, Famke Janssen, atriz holandesa que vive a mutante na franquia X-Men – mantém uma certa aura sobrenatural. A atriz conversou com Virgula Diversão na manhã desta quarta-feira (20), no hotel Fasano, em São Paulo, para divulgar a série Hemlock Grove, produção original do Netflix da qual é uma das protagonistas. Levemente mal-humorada, ela cumprimentou os jornalistas em português, pediu uma água e uma banana a uma assistente e conversou enquanto sua agente sentava logo atrás, teclando freneticamente no celular. Naturalmente alta – ela já foi modelo -, ela parecia ainda mais impressionante de salto, passando certamente dos 1,90. Primeiro, explicou a pronúncia de seu nome: Famke Janssen é, na verdade, Femke Ienssen.

Hemlock Grove, dirigida pelo cultuado diretor de terror Eli Roth, é ao mesmo tempo sucesso e um fracasso retumbante. A crítica detestou, mas a série levantou fãs pelo mundo, o que garantiu uma segunda temporada. Baseada em um livro escrito por Brian McGreevy, que adaptou a obra para a TV, a atração mistura lobisomens, vampiros, e outras criaturas a elementos de realismo fantástico. A mistura não agrada a todos, mas a personagem de Famka – com poderes inexplicáveis e uma vilania misteriosa – é, indiscutivelmente, uma das mais bem-resolvidas e multifacetadas.

“Gosto da maneira como ela se desenvolveu e como, talvez merecidamente, ela tenha terminado a primeira temporada em um saco para cadáveres”, conta. “Gosto da maneira como ela muda e você tenta descobrir quem é a verdadeira Olivia. Ela é tão má quanto parece na primeira temporada? Tão fria e calculista? Ou são apenas mecanismos de defesa? Da primeira para a segunda temporada, também é muito bom perceber que a personagem, que nunca teve emoções, a partir do momento em que as tem, não sabe como lidar com elas. Mesmo assim, seguimos vendo momentos em que a Olivia má reaparece – ou talvez ela apenas não consiga evitar”, analisa.

Durante a conversa, ela aproveitou para falar da sua carreira como diretora e roteirista – ela dirigiu Vivendo no Limite, de 2011, com Mila Jovovich – e adiantou que tem um novo projeto a caminho. Frisou, ainda, que procura balancear a carreira entre grandes e pequenos filmes. “Tento fazer filmes independentes porque há papeis mais desafiadores do que em filmes grandes. E gosto de apoiar cineastas independentes. E gosto da justaposição disso com filmes como X-Men, com sets de filmagem gigantescos, coisas acontecendo ao seu redor, é fantástico”, conta. E revelou que se arrepende de ter estrelado e dirigido um filme ao mesmo tempo, há mais de 15 anos.

“Você precisa ficar por horas editando e vendo a si mesma, e tudo que quer fazer é cortar a si mesma do filme”, diverte-se. “Fora que, como mulher, a experiência é diferente: você precisa passar horas no cabelo e maquiagem para entrar no set, e isso te afasta da filmagem por várias horas, o que não é bom quando se está dirigindo”, reclama. “Homens dirigem, aparecem no set e tudo bem, estão perfeitos. Fazer o quê? É diferente. Para diretores é bem mais fácil do que para diretoras. A partir de agora, não quero atuar, só quero dirigir e ficar no set o tempo todo”, dispara.

Ainda assim, as experiências atrás das câmeras foram transformadoras. “Entendi que tempo é dinheiro”, sintetiza. Em todo projeto que faço, carrego isso. Logo depois desta experiência, atuei em um filme de ficção científica no qual levava quatro horas para ficar pronta. E eu ficava muito ansiosa”, revela. “O que não é bom para um ator – a maioria, quando o diretor pergunta se você quer mais um take, diz que sim. Eu olho para o relógio e respondo que não, vamos com este mesmo [risos]. Preciso aprender a separar as duas coisas”, reflete.

Leia a entrevista:

Após a sua estreia como uma Bond Girl em Goldeneye, você passou a escolher seu papel de forma que não fosse sempre a “femme fatale” em sua carreira. Quanto tempo levou para passar esse recado para a indústria, que você não era apenas um rosto bonito?

Eu ainda faço isso. Hollywood tende a te dar um “tipo” e você recebe o mesmo tipo de papel repetidamente. Eu sou muito consciente disso. Nos filmes grandes, de estúdios, há um tipo específico de filmes. Nos filmes independentes eu tento fazer coisas diferentes.

Como Hollywood te enxerga? Em que tipos de papeis?

Mulheres fortes, independentes, filmes com alienígenas, sci-fi, mulheres “femme fatale” e devoradoras de homens, mulheres loucas [risos]. Mulheres maiores que a vida, porque eu sou alta, provavelmente [risos].

Como atriz, qual a diferença entre fazer um programa de TV em uma emissora tradicional e um para o Netflix? Não há piloto, você grava todos os episódios de uma vez… Como isso influencia o seu trabalho?

É como fazer um grande filme. Não tem tanta diferença. Você filma por quatro, cinco meses, que é o mesmo tempo para rodar um filme como X-Men. A diferença é que em filmes como esse você passa algumas horas no set por dia, e em uma série, você passa muitas horas, quase o dia todo. É muito mais rápido e muito mais trabalho. Outra diferença é que em um longa-metragem você tem em mãos o roteiro inteiro, já sabe como tudo vai ser e o que fazer com aquilo. No caso de uma série do Netflix, não. Mas em termos da preparação do ator, não há muita diferença. É um filme de 10 horas.

Outra diferença é que no Netflix não há interferência de executivos ou mudanças exibidas pelo estúdio ao longo das filmagens, certo?

Eu já estive em muitos filmes e programas de TV em que há muita interferência de executivos – e certamente prefiro quando não é assim. Você precisa dar a liberdade aos atores e artistas para que eles possam trabalhar. Mas não é como se estivéssemos no velho-oeste fazendo o que bem entendemos; recebíamos orientações e notas sobre o trabalho ao longo do processo. Tínhamos um produtor executivo e outros produtores – era um ambiente profissional.

Como usou a sua experiência como atriz para dirigir os atores em seus filmes? Que tipo de diretora você é no set?

O tipo com a qual eu não gostaria de trabalhar [risos]. É que quando eu vou ao set como atriz, eu quero ensaiar e fazer tudo exatamente como pensei em fazer, encontrar a cena, encontrar as minhas ideias, já que é o meu personagem. Como diretora, eu tenho tudo sob as minhas asas porque estou no controle. Digo para os atores: você fica aqui, você fica ali e as câmeras vão aqui, ação! [risos] Não é como eu quero trabalhar sendo atriz. Eu sou obcecada por controle, então…

Você aprendeu algo novo sobre si mesma como atriz sendo diretora?

Não, eu já sabia que era controladora [risos].

Sua personagem na série não envelhece. Como você lida com toda a questão em Hollywood e a pressão do envelhecimento sobre as atrizes? Parece que há uma parte cobrando que as atrizes pareçam perfeitas, outra patrulhando para que as mulheres “envelheçam com dignidade” e uma terceira criticando as mulheres que cedem à pressão e fazem procedimentos para retardar o envelhecimento…

É uma boa pergunta, porque não afeta apenas Hollywood. Nós damos um exemplo para mulheres. Há muita pressão em cima das mulheres na nossa sociedade para parecer jovem, saudável, magra, isso e aquilo. É um jeito muito ruim de viver. Vocês, homens, não passam por isso. Não são julgados pela aparência da mesma forma que mulheres. Não acho que seja saudável. Gostaria que houvesse uma forma de mudar isso – a única coisa que penso que posso fazer no momento é encontrar longevidade na minha carreira em outras áreas, como escrevendo, dirigindo e produzindo. Não quero ser controlada por quão bem ou mal eu envelheço ou quantas plásticas eu fiz, ou se sou convidada para fazer esse ou aquele filme por causa da minha aparência. Espero que eu possa mostrar para as mulheres que temos várias outras capacidades e não apenas a nossa aparência.

Você sente essa pressão da indústria no seu dia-a-dia?

Claro, você teria que viver em uma bolha para não sentir. Todo mundo tem que lidar com esse tipo de coisa. Especialmente trabalhando com cinema – imagine o seu rosto projetado em uma tela de cinema. Tudo que há de errado com o seu rosto é maximizado, coisas que você nem sabia que estavam erradas.

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