Kevin Spacey garante que não teria conseguido enfrentar o papel de Frank Underwood na bem-sucedida série House of Cards sem ter dedicado os últimos dez anos de sua carreira ao teatro e, especialmente, ao espetáculo Ricardo III.

“Não acho que teria sido capaz sem essa experiência”, afirmou o ator americano de 54 anos, ganhador de dois Oscar por Os Suspeitos (1995) e Beleza Americana (1999), em um breve encontro com a imprensa.

Michael Dobbs, autor do romance que inspirou a minissérie original britânica, baseou Frank em Ricardo III. Essa é a razão pela qual se dirige diretamente à câmera. Muitos pensam que essa opção (‘romper a quarta parede’) nasceu em Curtindo a Vida Adoidado (1986) mas não, foi criada por William Shakespeare em Ricardo III“, acrescentou.

Spacey se dedicou de corpo e alma durante dez meses a essa obra teatral que apresentou em palcos do mundo todo. Foi um trabalho que o deixou exausto física e mentalmente. Mas que também foi fundamental para poder embarcar, imediatamente depois, em House of Cards.

“Foi uma circunstância genial. Fechei a temporada em março de 2012 e em 28 de abril comecei a rodar a série. Significou muitíssimo para mim. Sem o teatro, não estaria preparado para Francis”, comentou.

Spacey está perto de se despedir do cargo de diretor artístico do mítico teatro Old Vic de Londres, posição que ostentou nos últimos 12 anos.

Em 2009, a Academia de Música do Brooklyn (BAM), o Old Vic e a produtora Neal Street criaram The Bridge Project, uma companhia teatral “transatlântica” que fundiria o talento britânico com o americano em uma série de atuações por todo o mundo.

Assim surgiram cinco produções internacionais de obras clássicas (Conto de inverno, O Jardim das Cerejeiras, Como gostais, A tempestade e Ricardo III) que foram vistas por mais de meio milhão de espectadores.

Agora chega aos cinemas americanos Now: In the Wings on a World Stage (“Agora: nas asas de um palco mundial”, em tradução livre), um documentário sobre a produção de Ricardo III dirigido por Sam Mendes, que traz um olhar íntimo ao trabalho e às relações da equipe artística. Spacey é produtor executivo da obra e se encarregou ele mesmo da distribuição.

“Quando fui ver Conto de inverno no teatro de Epidaurus (na Grécia), soube que devíamos levar Ricardo III ali. Depois pensei que devíamos captar a experiência, porque era algo único. Fazia 35 anos que uma companhia não percorria o mundo. Não dei indicações, só disse ao diretor que gravasse tudo aquilo”, contou.

O filme levou 11 semanas para ser montado em Baltimore enquanto Spacey rodava a segunda temporada de House of Cards.

“Poderíamos estudar lançar a obra direto em DVD porque é algo que nunca vamos fazer de novo. Após 200 atuações, podiam ter achado meus ossos sob um estacionamento, como aconteceu com o rei Ricardo III de verdade”, revelou o ator.

Para Spacey, há grandes paralelismos entre Ricardo III e o político Frank Underwood.

“São investigações da natureza e as reviravoltas do poder. Ambos têm a habilidade de prever como reagirão os outros; dessa forma conseguem estar 16 movimentos à frente na partida de xadrez e por isso conseguem o que querem”, defendeu o candidato ao Emmy e ao Globo de Ouro pelo papel na série do Netflix.

Ali, Underwood confessa diretamente ao espectador suas intenções, o transforma em seu aliado. E a convicção com o objetivo se deve à interação que viveu antes nos palcos.

“Olhei as pessoas por todo o mundo. Percebi suas reações. Agora não tenho olhos à minha frente, só a lente. Mas a memória dessa relação com o espectador ficou gravada como fogo em mim. Olho para a câmera e é como falar com meu melhor amigo. Conto minha intimidade. E, nesses casos, nem precisa de palavras. Nós dois sabemos o que estou pensando”, declarou.

Quando Spacey deixar o cargo no Old Vic, sabe que o leque de projetos cinematográficos que poderá participar será maior, mas sua paixão sempre pertencerá ao teatro.

“O teatro é orgânico; o cinema, não”, garantiu. “O teatro está vivo. Acontece agora e quando termina, não volta. Não importa quão bom eu for em um filme, porque nunca poderei ser melhor. Está congelado no tempo. No teatro, posso ser melhor na noite seguinte. E essa viagem, como ator, é incrível”, concluiu.

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