O Canal Viva, uma das empresas do grupo Globosat – cujo principal carro-chefe é, claro, a TV Globo -, já se tornou uma força na TV por assinatura no Brasil. A tal ponto que, quatro anos depois de sua estreia (em maio de 2010), o Viva já virou tema de tese de mestrado – que agora gerou um livro.

A Memória Televisiva como Produto Cultural, de Julio Cesar Fernandes, busca examinar a penetração do Canal na cultura de TV atual, com um recorte específico: as reprises de novelas globais, principais trunfos do Viva, e que levaram o Canal a se tornar um dos campeões de audiência na TV fechada.

Julio Cesar Fernandes tem 26 anos, e trabalha na TV Globo – é coordenador de operações do Jornal Hoje e do Manhattan Connection (exibido pelo canal Globo News). Formado em Rádio & TV, e agora mestre em Comunicação com ênfase em memória televisiva, sua tese de mestrado estudou o caso das telenovelas no Canal Viva, utilizando como ferramenta um grupo focal, reunindo telespectadores do Viva para destrinchar o que está por trás dessa vontade de ver (ou rever) as novelas exibidas pelo canal. Do grupo, participaram 13 pessoas – 7 homens e 6 mulheres; o mais novo tinha 25 anos, e a mais velha 60.

A pesquisa gerou o livro, que faz parte da Coleção ProTV, publicada pela editora InHouse, localizada em Jundiaí (interior de SP). Parte da renda do livro vai para a criação do Museu da Televisão, um projeto da atriz Vida Alves, uma pioneira da TV – ela deu o primeiro beijo em uma telenovela (com o ator Walter Forster, em Sua Vida me Pertence, de 1951). Envolvido com essa questão da memória da TV, Julio comenta: “Eu acho que a gente pode sim trilhar um caminho para preservar a memória da TV. Essa é minha luta para que isso aconteça”.

Na entrevista a seguir, Julio Cesar Fernandes fala sobre sua pesquisa, seu livro e sua paixão por novelas (antigas, de preferência).

Por que você decidiu estudar esse assunto?
Sempre gostei de TV, sempre gostei de estudar história da televisão, e sempre gostei de novela, um tema que me chamou muita atenção. E depois que terminei a graduação, eu queria continuar estudando, queria continuar na área acadêmica. Mas era difícil achar um objeto de estudo. Aí, com o Canal Viva, eu pensei “taí um objeto de estudo”. Eu gosto de novela, é um canal atual, TV por assinatura, e trata de novelas antigas. Aí comecei a pesquisar, e entendi que o melhor objeto seria a teledramaturgia. Isso foi em 2011, quando o Canal tinha um ano.

Você é um espectador de novelas? Assiste às atuais? Assiste às do Viva? Quais prefere?
Eu nunca me respondi essa pergunta (risos). Eu gosto de novela, independente de ser antiga ou nova. Eu estou assistindo à atual das 21h (Império, da Globo), tento acompanhar… Mas se fosse pra escolher entre as antigas e as atuais, eu escolheria as antigas sim. Tem essa pegada da nostalgia, de refletir um tempo que não é o atual, o lado político da época, social… Assisti Vale Tudo, tenho assistido Dancin’ Days, História de Amor eu gosto muito…

Qual o papel da telenovela hoje?
Eu acredito que o que é passado nas tramas é o reflexo do que tem na rua, a vida real, e ao mesmo tempo o contrário também existe, e as pessoas acabam influenciadas pelo que tá na tela. Então tem essa questão de refletir a sociedade. E a novela é um produto comercial, ela precisa vender, ter anunciantes, números, mas ao mesmo tempo ela tem sim uma função educativa, como o merchandising social, que está ali para ensinar o telespectador sobre alguns assuntos importantes.
Então a telenovela tem a função comercial, a educacional, e de entretenimento. Pode ser de alienação, como as pessoas dizem? Dizem que sim, mas é preciso lembrar que é entretenimento. Não tem a função de um telejornal, de uma escola.

O que você buscou descobrir ao realizar a pesquisa com o grupo focal?
A intenção era encontrar o motivo da nostalgia. Se existisse, na verdade era uma das hipóteses da pesquisa, e encontrar realmente a memória televisiva. As pessoas no grupo focal eram pessoas que assistem às novelas do Canal Viva, que eu encontrei via fan page do Canal Viva e pelo Facebook. Tinham de ser pessoas que não se conhecessem entre si, que não me conhecessem, e também não poderiam conhecer a mediadora do grupo focal. E eram pessoas que assistem às novelas do Viva, mas que não tinham assistido à exibição original. Caso tivessem assistido, teriam de ser muito novas, crianças ou adolescentes, quando tivessem assistido. Eu queria descobrir, por exemplo, se são pessoas que nem tinham nascido quando a novela passou na primeira vez, por que que ela assiste hoje?

E o que você descobriu? Você acredita que parte do público que assiste às novelas do Viva faz isso por um sentimento de nostalgia, por tentar reviver uma parte de seu passado? Existe essa busca, essa idealização de um “passado que foi tão feliz”? O que acha disso?
Sim, não só acredito, como isso é provado na pesquisa. Ao assistir a um material de arquivo, o telespectador ou telespectadora está mediado por diversos fatores, inclusive a nostalgia. Esse sentimento guia muitas vezes a razão pela qual essa pessoa assiste a um material de arquivo, como uma telenovela antiga. O porquê assistir pode ser por conta de viver algo que já viveu, relembrar como era a época para esse sujeito, a forma que lidava com tudo ao seu redor, entender a história da sociedade na época, para assim poder projetar um futuro diferente. Afinal, estudar o passado faz com que possamos entender melhor o nosso presente e construir um futuro.

E você, por que assiste?
É impossível dividir as razões, assisto a uma novela no Canal Viva porque gosto e acabo unindo o útil ao agradável, ou seja, aproveito para analisar cientificamente, como objeto de estudo, além de me entreter. A questão de reviver o passado, muitas vezes do que não foi nem vivido, ocorre, sim, comigo, assim como com outras pessoas. Afinal, o sujeito está inserido socialmente, faz parte de um grupo, e essa novela integra o imaginário coletivo desse grupo. Dessa forma, entendemos que tal trama é boa e temos a vontade de revê-la.

Qual sua novela preferida e qual gostaria de assistir no Viva (uma novela que você nunca viu)?
Minha novela predileta é Quatro por Quatro (1994), eu era criança mas assisti aos 6 anos, curtia muito. Depois assisti no Vale a Pena Ver de Novo, e depois no Viva. Tem Carrossel (1991) também, uma das minhas principais, mas essa é mexicana. Pensando numa novela que nunca vi, gostaria de ver no Viva O Bem-Amado (1973).

Mas essa foi lançada em DVD.
Tem o box, mas é editado. E é diferente você assistir no DVD ou no computador… Porque novela é isso: é você ver no dia a dia, o hábito, ver os capítulos na hora, o importante é você sentar, ver com o intervalo comercial. Pra mim isso não tá nada superado, eu vou continuar vendo assim.

A Memória Televisiva como Produto Cultural
Autor: Julio Cesar Fernandes
Editora InHouse
198 páginas

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