Responsável por trazer Robocop de volta às telas, o diretor José Padilha apresentou nesta terça-feira no Rio de Janeiro sua versão para a trama, com a qual o cineasta conseguiu, segundo suas próprias palavras, “fazer um filme político do jeito que quis”.

“O estúdio estava um pouco em dúvida, mas tivemos uma pontuação enorme no ‘focus group’ (grupo de discussão)”, completou o cineasta, que acredita que os estúdios subestimam o espectador americano. “O público está mostrando ser mais inteligente do que pensam que é”, arrematou.

Apesar de toda a estrutura existente na indústria cinematográfica norte-americana, o brasileiro imprimiu na produção um estilo com o qual já está acostumado, levando consigo parte da equipe com a qual normalmente trabalha.

“Fazer um filme político de estúdio é muito difícil. O nosso filme é bastante diferente do modelo de estúdio. Começa que a gente tem um vilão que não é vilão”, explicou o diretor, que optou por não ter personagens “caricaturais”. “Eu queria um filme em que o personagem oposto ao ‘Robocop’ fosse extremamente inteligente e tivesse um argumento, exatamente o argumento que se usa hoje em dia para defender ‘drones”, contou.

Esse personagem coube ao ator Michael Keaton, que, ao lado de Joel Kinnamam, intérprete do Robocop, participou da coletiva de imprensa de divulgação do filme no Rio de Janeiro. Keaton deu vida a Raymond Sellars, presidente da OmniCorp, empresa que fabrica robôs e ‘drones’ e que busca uma saída para inserir os produtos dentro do lucrativo mercado americano, único reduto no mundo onde seus produtos não têm autorização para fazer a ‘segurança’ da população.

“É um filme filosoficamente e emocionalmente muito profundo”, afirmou o ator, sempre lembrado por sua atuação na pele do “Batman” dirigido por Tim Burton. “Batman não é tão político como este filme. Não está nesse nível”, concluiu Keaton.

Padilha contou ainda que a decisão de fazer uma nova versão de “Robocop” foi pessoal, por acreditar que a obra poderia provocar um debate, e lembrou ter dito aos executivos da MGM que conseguiria “fazer um filme sobre a política do ‘drones’ e a substituição de soldados por robôs e da consequência na geopolítica; um filme com conteúdo, não somente de entretenimento”.

Quanto à primeira versão, lançada em 1987, e a expectativa dos fãs, o diretor afirmou que “foi fiel ao filme, às ideias, mas não à forma”. “Me concentrei na premissa da substituição dos soldados por robôs. Isso vai acontecer. No filme, os robôs são usados na guerra, mas não nos Estados Unidos. Respeito os fãs, sou um fã, adoro a primeira versão, mas, se for pensar neles, não faço um filme”, frisou.

O novo Alex Murphy, o ator Joel Kinnamam, aliás, incluiu-se entre os admiradores do protagonista e brincou com a preocupação da mãe, uma terapeuta, que ficava espantada com a quantidade de vezes que assistia ao filme quando criança, o que, segundo ele, o habilitava ao posto. Brincadeiras à parte, o ator de origem sueca destacou os conflitos e a densidade da história, que vai além da violência.

“Embora o personagem tenha o mesmo nome, sua jornada é completamente diferente. José (Padilha) mostrou que era um personagem complexo, cheio de contrastes, e que passa por muitas fases. Quando busco um personagem para interpretar, a primeira coisa que observo são os contrastes, se ele se comporta de diferentes maneiras, e se há um grande desenvolvimento, e este é muito rico em todos os aspectos”, explicou Kinnamam, lembrando que o policial tem que lidar com a nova realidade ao despertar e descobrir que seu corpo já não é mais como antes. 

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