Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio mostram o lado mais brutal de Wall Street no filme O Lobo de Wall Street, que chega nesta semana às telas americanas (e em 24 de janeiro no Brasil) como um projeto polêmico que tem tudo para ser um dos filmes do ano.

Candidato a dois Globos de Ouro, melhor comédia e melhor ator de comédia, o filme, que estreia no Natal, “é um reflexo de tudo que vai mal na sociedade”, resumiu DiCaprio na entrevista coletiva de apresentação do filme, do qual também é produtor.

O longa narra a história real de Jordan Belfort, um homem arrogante que se aproveita da falta de regulação do final dos anos 80 e início dos anos 90 no setor financeiro para ganhar enormes quantias em dinheiro, com práticas a princípio duvidosas e, depois, claramente ilegais.

Belfort e os jovens ambiciosos de sua empresa de corredores da bolsa usam a todo tipo de drogas, práticas sexuais, orgias e fantasias extravagantes, em uma louca e desenfreada corrida hedonista sem qualquer preocupação com o futuro.

O protagonista “é uma espécie de Calígula moderno”, explicou DiCaprio, que insiste que a fita é “uma descrição dos tempos em que vivemos”.

O ator contou que leu a autobiografia de Belfort e se deu conta “imediatamente de que esses eram os figurões que estavam destruindo a economia”, em alusão à crise financeira de 2008.

DiCaprio, que convenceu Scorsese a embarcar no projeto, considera o filme “uma grande obra épica americana de cobiça”, que narra tudo que acontecia na época, sem qualquer censura.

“Não guardamos nada”, conta DiCaprio, que ressalta que, na autobiografia, Jordan descreve “coisas que jamais poderíamos imaginar”, e que o próprio lhe disse que havia episódios ainda piores que não incluiu no livro.

Mas apesar do tom casual e de comédia, com a voz em “off” de Jordan contando episódios cada vez mais excêntricos, o filme é um drama, tanto pelo processo de degradação dos protagonistas como pelo marco legal e financeiro que tolera essas maldades.

Esse é o quinto trabalho que reúne a DiCaprio e Scorsese, após “Gangues de Nova York” (2002), “O Aviador” (2004), “Os Infiltrados” (2006) e “Ilha do Medo” (2010).

Trabalhar com DiCaprio “me rejuvenesce”, descreveu o diretor, de 71 anos, que explica que o elemento-chave “é a confiança” que ambos têm um no outro.

Sobre o filme, Scorsese explicou que encontrou “a forma de enfocar o material com outra perspectiva respeito a outros filmes”, já que, perante os excessos do protagonista e seus seguidores, buscou distanciar-se e “contar as coisas com perspectiva”, deixando que sejam os próprios personagens os que levem o peso da narração.

“Qual é a responsabilidade quando não há restrições morais? Acho que ainda não há resposta”, acrescentou.

O roteiro é assinado por Terence Winter, autor de séries de mafiosos como “Família Soprano” e “Boardwalk Empire”, que considera que o filme, apesar de se passar em Wall Street, não deixa de pertencer a esse gênero que Scorsese conhece tão bem e e que retratou tão bem em “Os Bons Companheiros” (1990).

Em tom de ironia, Winter lembrou que quando foi revelado o alcance dos crimes de Belfort, o então presidente da Associação Nacional de Corretores de Valores (NASD) clamou de indignação e pediu que fosse condenado à prisão perpétua.

Esse então presidente da NASD era ninguém menos que Bernard Madoff, condenado em 2009 a 150 anos de prisão por criar a maior fraude piramidal da história.

Assim, a epopeia de Jordan ++Belfort++, iniciada na época de falta de regulação em Wall Street, fecha o círculo chegando às telas quando o país parece estar consolidando sua recuperação após a crise financeira de 2008 e os novos excessos do mundo das finanças, inclusive apesar das regulações.

“O Lobo de Wall Street” teve muitos problemas na produção, já que o primeiro estúdio que comprou os direitos não conseguiu financiamento para uma fita tão arriscada, e depois foram necessários anos de negociações para que cedessem seus direitos a uma produção independente.

Por essas e outras, Scorsese reconheceu que “oportunidades assim não aparecem com muita frequência dentro do sistema dos estúdios”.

A cereja do bolo do filme é a caprichada a fotografia do mexicano Rodrigo Prieto, além da excelente trilha sonora, assinada por Robbie Robertson, em nova parceria com Scorsese, combinando o melhor do blues com sucessos europeus da época e até o barroco de Henry Purcell. 

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