Elysium, com Matt Damon, Wagner Moura e Alice Braga

Max (Matt Damon)

Wagner Moura e Alice Braga têm uma forte história de amizade, que começou com a parceria no filme Cidade Baixa (2005) e prosseguiu ao longo dos anos. Em 2013, eles estão juntos no cinema mais uma vez, dessa vez em Elysium, uma superprodução hollywoodiana dirigida por Neil Blomkamp (Distrito 9) e estrelada por Matt Damon (Contágio).

Com papéis importantes na trama, os atores brasileiros não deixaram a peteca cair e entregaram belas performances. Em coletiva de imprensa realizada em São Paulo, na segunda-feira (9), eles falaram sobre trabalhar juntos em uma ficção científica com custo de produção de US$ 115 milhões.

“Fui a Vancouver, onde não conhecia ninguém, para fazer uma coisa difícil, falando em outra língua. Se a Alice não estivesse ali, realmente seria foda. Eu sou amigo dela há anos. Tenho muito amor por ela”, disse Wagner, que admitiu a dificuldade de atuar em inglês. “Eu não tenho o ouvido treinado para perceber diferenças sutis, mas sabia que tinha de preencher com uma humanidade artificial. Eu me escutava falando e achava estranho”, explicou.

A história de Elysium se passa no ano de 2154, em que a humanidade é dividida entre os moradores da Terra e aqueles que vivem na estação espacial Elysium, habitada por “seres superiores”. Com cinco dias de vida restantes, Max (Damon) busca a ajuda de Spider (Moura), ex-presidiário que pode levá-lo à Elysium, onde ele pode obter a cura para sua doença. O filme tem estreia marcada para 16 de agosto.

Elysium mostra um futuro apocalíptico. Vocês acham que o mundo terá um destino parecido com o do filme?
Wagner: Eu sou bem otimista quanto ao futuro. Eu boto muita fé nas próximas gerações, vendo o meu filho brincando com os amigos dele. Eu acho que esse filme é uma metáfora, uma tentativa de reproduzir um receio. Para a gente que é brasileiro, a desigualdade social é talvez a questão mais importante do País. As mazelas de Elysium também dizem respeito aos ataques ao meio-ambiente. O filme sinaliza para coisas importantes sobre as quais a gente tem de pensar, mas não aponta para uma possibilidade real. É uma tentativa de colocar uma discussão em um filme de entretenimento.

Alice: Concordo com o Wagner. Acho que o Neill não tentou fazer uma previsão. A primeira vez que vi o filme, a maneira que ele gosta de fazer cinema é trabalhando com assuntos realmente atuais. Obviamente, o filme é futurista. Mas na nossa Terra, há favelas, há violência, a gente vê isso. Não sei se isso é o futuro. Eu sou otimista e acho que a mudança está na gente. Se a gente não mudar, nada vai mudar.

É mais complicado interpretar em inglês?
Wagner: Eu acho muito difícil. O único filme que fiz em outra língua foi esse. Eu não sou falante de língua inglesa, nunca morei fora do Brasil. Eu sei falar inglês, sei falar com as pessoas e tudo o mais. A gramática é simples, mas a pronúncia tem minúcias que são complicadas. Eu não tenho o ouvido treinado para perceber diferenças sutis, mas sabia que tinha de preencher com uma humanidade artificial. Eu me escutava falando e achava estranho. Propus para esse personagem uma construção arriscada. Foi todo um processo de me acostumar um pouco com aquela figura. O inglês foi o principal desafio. A Alice me ajudou muito com isso. Eu passava os textos com ela, e ela dizia, ‘Não é assim’.

Alice: O movimento da língua é totalmente diferente no inglês. Se acostumar com isso e deixar a fala natural é muito difícil. Português é muito mais fácil. Mas é um desafio interessante. É um processo trabalhoso, mas divertido.

Wagner: Eu acho que fazer filmes vai te deixando mais à vontade. Eu conversei com o Rodrigo Santoro, e ele disse que, hoje, para ele, é algo mais tranquilo que era quando ele começou a fazer projetos em inglês.

O Neill Blomkamp especificou as origens de seus personagens?
Wagner: Ele deixou isso conosco. A Frey tem uma história com o personagem do Matt Damon desde pequena, mas ele não especificou qual é o país de origem dela. Ao longo do processo, ele quis jogar um pouco espanhol no meio da história. Para mim, a Frey veio da fronteira entre o México e os Estados Unidos. Eu fiz um sotaque espanhol do México, que é um pouquinho mais cantado.

Wagner: Na minha cabeça, o meu cara é brasileiro. Eu estava rodeado de atores latinos, como o Diego Luna e os caras ali. Todos eram meio com o sotaque de mexicano. Na minha cabeça, o Spider era um brasileiro que chegava lá e mandava em todo mundo (risos).

Alice: O Wagner tem uma bandeira do Brasil bem pequena tatuada. Um dia, ele estava na maquiagem e o Matt Damon perguntou, “Por que você tem um hambúrguer tatuado?”.

Wagner: Daí, eu falei “Pô, essa é a bandeira do meu país”. E ele se desculpou (risos).

Quais são as diferenças entre gravar um projeto tão grande lá fora e fazer um filme menor?
Wagner: Eu fiz o Elysium agora e fiz um filme na Alemanha [Praia do Futuro], que é o oposto dele, bem pequeno e independente. Foram as duas experiências que tive fora do Brasil. A única diferença que vejo é a quantidade de dinheiro envolvido em cada projeto. Filmar é a mesma coisa em todo lugar. Mas ter muita grana envolvida influenciava em tudo. Desde o tamanho da equipe até a comida, que era boa demais.

Você [Wagner] pretende fazer outros filmes em inglês? E por que quis fazer Elysium?
Wagner: Há possibilidades, mas eu sou muito chato, cara. Eu só faço coisas que acho muito legais. Não importa o dinheiro. E Elysium é muito bom. Quando fui chamado para fazer o filme, achei um puta convite. É um personagem ótimo. Eu tinha visto o Distrito 9 e fiquei doido. Gosto muito de filmes que alinham entretenimento com alguma coisa para dizer. Acho que é a combinação mais difícil. Mais simples seria fazer um filme cabeça, experimental ou uma bobagem que milhões de pessoas vão ver. A gente está especulando sobre o futuro, imaginando como vai ser a desigualdade social.

Houve mudanças no roteiro ao longo das gravações?
Wagner: Sim. Teve cenas adicionais, cenas cortadas. Basicamente, eles fizeram do Matt Damon um personagem mais ambíguo. Ele ficou mais evidentemente herói nessa versão do que no roteiro. O meu personagem, antes, era menos revolucionário. O outro só queria sobreviver e eu só queria pegar o dinheiro dele.

Como você [Wagner] construiu o seu personagem?
Wagner: Eu fiquei muito a fim de fazer o filme. Recebi o roteiro e fiquei em casa pirando. O roteiro dizia levemente que o Spider tinha um problema na perna. Daí eu fiquei treinando para isso. Eu cheguei lá e eles me deram a prótese para a perna, e aquilo faria com que ele andasse normalmente. Daí, eu falei que já tinha treinado para mancar, que sem a prótese ele nem andaria. Pedi uma bengala e em 10 minutos tinha 50 bengalas para escolher. Isso faz diferença, cara.

Vocês gostam de fazer filmes de ação?
Alice: Tem dia que você fica o dia todo ofegante. Mas você tem de saber a hora de dar risada, não dá para levar tudo a sério.

Wagner: E a Alice passa metade do filme carregando uma menina [Emma Tremblay] no colo. E o tempo foi passando e a menina foi crescendo. Daí teve um dia que ela chegou e falou, “Cara, essa menina está muito gorda! Ela tem de parar de comer” (risos).

Alice: Sacanagem. Eu não falava assim. Ela era super bonitinha.

Wagner: Elas ficaram amigas. A Alice ficou super amiga da gorda.

Na cena em que você [Alice] conversa com o personagem do Matt Damon por meio de um comunicador, em um momento crucial no filme, com quem estava falando? Era um ponto? Eram falas pregravadas?
Alice: O Matt estava no set. Ele foi lá só para fazer isso. Eles me deram um ponto, daquele que as pessoas usam na televisão, da cor da pele, e o Matt estava nos monitores. Eu não sabia que ele iria estar no set e fiquei muito feliz quando o vi. Foi algo muito generoso da parte dele. Isso me ajudou muito, porque seria muito difícil fazer sem ele.

O elenco possui atores do Brasil, África do Sul, México… Vocês acham que o diretor teve a preocupação de pensar na questão do terceiro mundo? Essa tônica estava presente?
Wagner: Acho que estava. O Neil não escolheu esse elenco à toa. Acho que era uma vontade do diretor de trazer atores que de certa forma entendessem essa realidade, que viessem de lugares em que a exclusão social é presente. E isso também serve para reforçar essa coisa da exclusão das fronteiras. Me incomoda muito, no aeroporto, ter de explicar para o cara o que eu quero fazer em determinado país.

Como foi o reencontro entre vocês dois, oito anos depois de Cidade Baixa?
Wagner: Eu tenho muita dificuldade para ficar longe de casa, porque tenho três filhos. Fui para Vancouver, onde não conhecia ninguém, para fazer uma coisa difícil, falando em outra língua. Se a Alice não estivesse ali, realmente seria foda. Eu sou amigo dela há anos. Tenho muito amor por ela. Fazer Cidade Baixa foi muito intenso. Você não sai desse processo impunemente. Para mim, ela é uma reserva de afeto. Era muito bom vê-la todo dia no set e acordar com ela no mesmo lugar. Esse sorriso dela é lindo. A gente saía muito, bebia. Ela me ajudou muito com esse negócio do texto. Durante as gravações, eu tive uma pneumonia grave e fui parar no hospital. E a Alice sempre estava ali comigo, fazendo supermercado e indo para a farmácia.

Alice: Para mim, foi muito especial poder ver o Wagner de camarote. Em toda entrevista, eu sempre falo dessa pessoa. Foi com ele, em Cidade Baixa, que saquei pela primeira vez o que eu acredito em termos de atuação. Ele já era uma referência, porque eu havia visto A Máquina. E ele virou um ídolo. Ver um ator que mudou a minha vida chegar do jeito que chegou, fazendo as pessoas se apaixonarem por ele, ver o que ele fez com o personagem foi muito emocionante. Espero que as pessoas assistam ao filme para ver o Wagner. E espero que a gente se reencontre de novo.

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